Medida é vista por lideranças do agronegócio como movimento protecionista europeu
Por Sandra Jassa
A decisão da União Europeia, nesta terça (12), de ampliar barreiras e excluir parte das importações brasileiras de carnes e outros produtos agropecuários provocou forte reação entre lideranças do setor produtivo nacional. O 4º Congresso Abramilho realizado em Brasília na quarta (13) permitiu uma breve reflexão deste movimento não esperado do bloco europeu. A medida, considerada inesperada por representantes do agronegócio, ocorre em um momento delicado para o produtor rural brasileiro, que já enfrenta altos custos de produção, margens apertadas e desafios logísticos para a próxima safra.
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion, classificou a ação europeia como essencialmente política e protecionista, voltada mais para atender pressões internas de produtores europeus do que por falhas sanitárias brasileiras.

“Isso é uma questão protecionista da Europa, da União Europeia. Os produtores ingleses, irlandeses, italianos e alemães têm reclamado muito da competitividade da proteína brasileira, porque chegamos mais baratos ao mercado europeu”, afirmou Lupion.
Segundo ele, o Brasil já possui protocolos sanitários reconhecidos internacionalmente e tem prazo até setembro para cumprir exigências adicionais relacionadas, principalmente, ao uso de antibióticos na produção animal.
“Brasil é exemplo para o mundo inteiro em relação à sanidade animal. Estamos em mais de 400 mercados devido à qualidade da nossa produção. Poucos países cumprem as exigências sanitárias que o Brasil cumpre”, destacou.
Apesar da repercussão, Lupion minimiza impactos estruturais de longo prazo e acredita em resolução diplomática nos próximos meses. “Até setembro isso tudo estará resolvido. Não vejo impacto grande para o Brasil”, pontuou.
Vacinas em falta no país, não têm relação direta com embargo europeu, segundo o parlamentar:
Paralelamente às discussões comerciais internacionais, pecuaristas brasileiros enfrentam outro problema: a escassez de vacinas contra clostridioses, especialmente a vacina contra carbúnculo sintomático, essencial para o rebanho bovino.
Lupion esclareceu que essa situação não está relacionada às restrições europeias, mas sim a problemas internos de mercado envolvendo laboratórios nacionais. “Descobrimos que havia uma reserva de mercado. Quatro laboratórios estavam estocando cerca de 14 milhões de doses para elevar preços. Denunciamos ao CADE e ao Ministério da Agricultura”, explicou.
De acordo com ele, após pressão institucional, o setor começou a regularizar o abastecimento. “O Sindan já fez pedido público de desculpas e começou a disponibilizar novamente as doses no valor anterior para atender os pecuaristas”, disse.
Sobre soja e milho: Cenário econômico pressiona próxima safra
O parlamentar comenta que no campo, produtores seguem resilientes, mas enfrentam desafios severos diante da queda nos preços das commodities e dos custos elevados dos insumos. “Quando falamos em vender soja a R$ 103 ou R$ 107, estamos praticamente empatando, porque o custo de produção gira em torno de R$ 110 em boa parte do país**”, observou Lupion.
Ainda assim, a expectativa para a próxima safra permanece positiva, especialmente diante do crescimento da cadeia do milho e do avanço do etanol de milho no Brasil. “O Brasil está se tornando um protagonista enorme na produção de etanol de milho, o que aumenta a demanda e fortalece toda a cadeia produtiva”, ressaltou.
Relação comercial sob tensão
Lideranças do setor também apontam que o endurecimento europeu pode provocar respostas comerciais por parte do Brasil, sobretudo diante de recentes divergências diplomáticas com países como França. “Chumbo trocado não dói. Se eles têm onde atacar, nós também teremos como responder”, declarou Lupion.
Enquanto isso, o agronegócio brasileiro segue atento aos desdobramentos políticos e comerciais, buscando preservar sua competitividade global em meio a um cenário internacional cada vez mais marcado por disputas econômicas e protecionismo.
4º Congresso Abramilho (Divulgação Abramilho/Daniela)













