Por ROBERTO PIMENTEL
Dizer que a mãe é a flor mais bonita, uma estrela, um anjo da guarda e coisas do gênero todo mundo já disse ou escreveu. Ninguém mais consegue ser original para falar das mães! Não é fácil falar sobre elas, pois, tudo que se diga, que se escreva, não irá atingir nem de perto o que as genitoras merecem. Resta então mostrar algumas peculiaridades da nossa. São tantas que enumerar seria até enfadonho e escolher algumas é como escolher um presente, apenas um, dentre tantos que estão a sua frente. Então é fechar os olhos e dizer como na brincadeira infantil “mamãe mandou bater aqui”. Depois de Deus, a quem mais recorremos é a nossa mãe, sinônimo de amor, bondade, ternura, compreensão, tolerância, perdão, dedicação, carinho e tantas qualidades. Que me perdoem as outras mulheres a mim relacionadas: filha, irmãs e esposa, mas, a mulher mais guerreira que conheço é minha mãe. Elas sabem o porquê dessa afirmativa e certamente terão de seus filhos esse reconhecimento. Nascida no primeiro quarto do século passado, mamãe foi uma mulher de vanguarda. Em sua juventude tinha atitudes pouco incomuns às jovens de então: cavalgava, atirava com arma de fogo e pilotava barco à vela, recurso este usado em seus deslocamentos da cidade interiorana onde morava, atravessando a pequena baia para as localidades em que exercia o magistério fundamental e de lá a cavalo em outros percursos.
Organizava festas, corais, peças teatrais, costurava, bordava, pintava, fazia flores e era uma educadora nata, alfabetizando crianças e adultos, tanto que meus quatro filhos foram por ela alfabetizados antes dos cinco anos. E quando foram à escola já começaram na primeira série. Tinha a frustração de não possuir o segundo grau, à sua época o pedagógico, que tornava seus concluintes professora normalista.
Quando ela já passava dos sessenta anos, um dia a inscrevi em exames públicos do Curso Supletivo, trazendo apostilas de matérias consideradas “decorebas” (como se falava há algum tempo), tendo mamãe sido aprovada em todas, ficando para uma segunda etapa, aquelas de maior conteúdo programático como Física, Biologia, Qúmica, Matemática e língua estrangeira (Espanhol), que seis meses depois foram eliminadas, após mamãe frequentar um cursinho preparatório. Mamãe se deu ao luxo depois, de ensinar em casa pontos de Química e Literatura para colegas seus que ficaram devendo a disciplina. A etapa seguinte seria o vestibular, mas ela arquivou essa aventura por motivos mais nobres, contudo ostenta o certificado do hoje Ensino Médio, com a façanha de ter obtido já sexagenária e em menos de um ano.
Detentora de grande oratória era sempre aplaudida nos palanques, tanto em comemorações públicas ou em campanhas políticas, em prol de seus candidatos. Lembro de ter presenciado vários de seus pronunciamentos, testemunhando envaidecido os aplausos e cumprimentos emocionados. Minhas primeiras lembranças de mamãe eram de saudade, quando me acordava e sabia que ela tinha viajado de madrugada. E à noite, diante de sua breve ausência eu dormia agarrado a um de seus vestidos. Quantas vezes passeamos juntos de braços dados, desde quando eu era menino. Ainda o faço prazerosamente. Mãe extremosa, filha dedicada, irmã, nora, cunhada, tia, prima, madrinha, amiga, de não deixar ninguém na mão. E esposa constante até os últimos suspiros de meu pai. Serva fiel do Senhor, pregadora de seu amor e de sua salvação é uma testemunha viva de sua misericórdia, de seu amor e de suas bênçãos, sendo curada em sonhos de câncer no útero, quando eu tinha dois anos. Falo muito de mamãe e vou passar a vida fazendo isto, contando e recontando suas histórias, de sua atuação, seus ensinamentos e recordando seus feitos. Mamãe já está com mais de 83 anos e é uma referência para seus filhos e netos. Costumo dizer que ela é o nosso Eliseu, parafraseando de que “há ainda profetas em Israel”, pois, quando surge um problema, a gente corre para ela que nos acorre. Um dia destes precisava eu tomar uma injeção para combater uma gripe. Para isso teria que ir ao médico, obter uma receita e procurar um ambulatório ou uma enfermeira e etecetera e tal. Sem tempo e disposição o jeito foi apelar pra mamãe. Preparei a seringa, e me submeti a sua santa mão. Ela passou o algodão com álcool delimitando o local a ser inoculado o líquido em um de meus braços. E eu esperando a agulhada com relativo temor, mas confiante. Passaram uns dez segundos e eu não me contive: “vamos logo mamãe, não demore”. “Demorar o quê? Eu já apliquei!” A resposta me levou aos risos. Essa é a minha insubstituível mãe!
20/11/2008
*O autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ













