segunda-feira, abril 13, 2026
Desde 1876

ARTIGO – Valoração Resíduos Sólidos Urbanos na transição energético do Brasil

A Nova Fronteira Estratégica do Brasil: Resíduos, Biocombustíveis e a Ascensão da Economia Circular

Por Sebastião Martins

Para uma boa compreensão deste artigo, é importante esclarecer que ele expressa a visão pessoal do autor acerca de manifestação encaminhada aos Ministérios Federais — Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Tribunal de Contas da União (TCU) e Controladoria-Geral da União (CGU), sob protocolo nº 00106.004467/2026-98— tratando da necessidade de priorizar a destinação dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) às Unidades de Recuperação de Energia (URE/WTE), em substituição preferencial à disposição em aterros sanitários.

Tal entendimento fundamenta-se na Lei nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a qual estabelece a hierarquia de gestão e incentiva soluções que promovam o máximo aproveitamento energético, econômico e ambiental dos resíduos. Nessa perspectiva, as URE/WTE tendem a apresentar desempenho energético significativamente superior ao dos aterros sanitários com captação de biogás e geração elétrica, podendo alcançar, em determinadas condições, resultados muito mais expressivos.

A própria lógica da legislação indica que a destinação para aterros sanitários deve ser adotada de forma subsidiária, especialmente quando não se demonstrarem viáveis, sob os aspectos técnico, econômico e financeiro, alternativas superiores de valorização material ou energética dos resíduos.

Eis, em síntese, o entendimento manifestado pela CGU com base no art. 31 da referida lei:

Art. 31 – Investimento no desenvolvimento, na fabricação e na colocação no mercado de produtos:

  1. que sejam aptos, após o uso pelo consumidor, à reutilização, à reciclagem ou a outra forma de destinação ambientalmente adequada;
  2. cuja fabricação e uso gerem a menor quantidade possível de resíduos.

Embora a ênfase normativa recaia, de forma ampla, sobre os princípios da economia circular, o aproveitamento integral ou parcial de materiais não reutilizados ou não recicláveis pode ser direcionado à produção energética. Nesse contexto, insere-se a proposição do autor: que os RSU sejam destinados prioritariamente às rotas de maior aproveitamento econômico e energético — notadamente às URE/WTE — permanecendo os aterros sanitários com recuperação energética como alternativa residual, aplicável apenas quando comprovada a inviabilidade de soluções mais eficientes.

Dadas essas considerações preliminares, o Eng. Martins apresenta, a seguir, sua análise comparativa sobre a alternativa mais vantajosa ao interesse público: URE/WTE versus aterros sanitários com recuperação de energia.

O Brasil está emergindo como um dos países mais promissores na corrida global pela descarbonização, combustíveis renováveis e desenvolvimento industrial sustentável. Com abundância de biomassa, agricultura em larga escala, crescente geração de resíduos urbanos e forte capacidade industrial, o país reúne condições únicas para liderar setores como Combustível Sustentável de Aviação (SAF), Waste-to-Energy (WTE), biodiesel, etanol de segunda geração e fertilizantes organominerais.

Especialistas apontam que poucas nações combinam tantas vantagens competitivas simultaneamente. A vasta oferta brasileira de resíduos agrícolas, recursos florestais e Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) cria uma enorme base de matérias-primas capazes de serem transformadas em energia limpa, combustíveis avançados e produtos industriais estratégicos.

SAF Ganha Relevância Estratégica

Entre as oportunidades mais debatidas está o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), considerado essencial para o futuro da aviação global. À medida que companhias aéreas enfrentam crescente pressão para reduzir emissões, o Brasil surge em posição favorável devido à disponibilidade de biomassa, rede logística e conhecimento industrial.

Analistas acreditam que o país pode se tornar um dos maiores produtores mundiais de SAF caso investimentos, regulação e execução industrial avancem no ritmo necessário.

Resíduo Já Não é Mais Lixo

Outro tema em rápida expansão é o Waste-to-Energy (WTE), que converte resíduos sólidos urbanos em eletricidade, combustíveis e outros produtos valiosos. Em vez de representar passivos de aterros sanitários, os resíduos urbanos passam a ser vistos cada vez mais como recurso estratégico.

Para cidades que enfrentam saturação de aterros, pressão ambiental e aumento dos custos de destinação, o WTE vem sendo debatido como solução moderna de infraestrutura capaz de combinar saneamento, geração de energia e novas receitas.

Participação dos Ministérios Públicos, Minas e Energia, Meio Ambiente e Demais Órgãos Estratégicos

Para que as proposições aqui apresentadas se concretizem em benefício do país, torna-se indispensável — condição sine qua non — que os Ministérios Públicos, os órgãos vinculados ao Ministério de Minas e Energia, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e demais instituições públicas passem a priorizar a valorização econômica e energética dos RSU.

Isso significa reconhecer que os resíduos urbanos podem e devem ser direcionados, prioritariamente, à produção de biocombustíveis, fertilizantes organominerais, hidrogênio verde e outros produtos de maior valor agregado, em substituição ao modelo historicamente concentrado em aterros sanitários.

Ainda que os aterros possam capturar gás e gerar alguma energia, o retorno econômico, ambiental e estratégico tende a ser significativamente inferior ao proporcionado pelas rotas industriais mais modernas aqui discutidas. Em um momento marcado pela transição energética global, pela busca por segurança energética e pelas tensões geopolíticas internacionais, essa mudança de paradigma torna-se essencial para mitigar impactos da crise econômica mundial e fortalecer a soberania produtiva brasileira.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos já estabelece diretrizes para a valorização dos resíduos e admite outras formas de destinação apenas quando demonstrada a inviabilidade técnico-econômica de alternativas superiores. Em termos práticos, isso reforça que a utilização dos RSU para gerar biocombustíveis, fertilizantes e insumos estratégicos deve ser tratada como prioridade nacional.

Fertilizantes e Segurança Nacional

A forte dependência brasileira de fertilizantes importados também intensificou o interesse por fertilizantes organominerais produzidos domesticamente a partir de biomassa e fluxos de resíduos. Especialistas defendem que ampliar a produção local fortaleceria a segurança alimentar, reduziria a exposição a choques internacionais de preços e aumentaria a competitividade agrícola.

PPPs como Motor de Financiamento

Projetos de grande escala nesses setores geralmente exigem estruturas robustas de capital. Por isso, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) vêm sendo vistas como instrumento-chave para acelerar o desenvolvimento da infraestrutura.

Ao melhorar a alocação de riscos, a estabilidade contratual de longo prazo e o acesso a financiamento, os modelos de PPP podem destravar investimentos em gestão de resíduos, transição energética e modernização industrial.

Investidores Estão Observando de Perto

Os mercados financeiros vêm dedicando maior atenção a projetos capazes de combinar rentabilidade com desempenho ESG. Plantas WTE, iniciativas de SAF, produção de biodiesel e empreendimentos de etanol avançado se encaixam nesse perfil por oferecerem fundamentos de demanda de longo prazo e impacto ambiental mensurável.

A bancabilidade, entretanto, continua essencial. Estudos de viabilidade, segurança no suprimento de matérias-primas, matrizes de risco, estruturas protegidas de fluxo de caixa e ferramentas avançadas de modelagem, como a Simulação de Monte Carlo, já são consideradas decisivas para atrair capital sério.

Uma Década Definida pela Economia Circular

Economistas observam que a década de 2020 pode se tornar o período em que modelos de economia circular deixem de ser conceito e se tornem realidade industrial. Transformar resíduos em valor, reduzir importações, produzir energia doméstica e monetizar recursos subutilizados já não são ideias de nicho — estão se tornando estratégias centrais.

Nesse cenário, a combinação brasileira de escala, recursos naturais e potencial industrial coloca o país em posição privilegiada. Se a execução acompanhar a oportunidade, o Brasil poderá se tornar um dos líderes globais da nova economia de baixo carbono.

*O autor é Engenheiro Eletricista formado pela UFRGS em 1971, foi professor universitário e atuou em grandes projetos de siderurgia e mineração no Brasil. Possui conhecimentos em Direito Tributário, Contabilidade, Economia e Auditoria. Nos últimos seis anos, se dedica a estudos de viabilidade econômica e financeira para usinas eólicas, fotovoltaicas e unidades de recuperação de energia a partir de RSU, aplicando a Simulação de Monte Carlo. Escreve sempre neste espaço de Economia de A PROVÍNCIA DO PARÁ

banner-pmb-300x100px

artigos relacionados

PERMANEÇA CONECTADO

50,319FansLike
3,537FollowersFollow
22,900SubscribersSubscribe
banner liquida avistao - 320x320
WebBanner_AnitaGerosa_320x320px

Mais recentes