sábado, julho 11, 2026
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Belém vai enfrentar o novo El Niño. Há riscos de seca, fumaça e doenças na capital paraense, diz a Fiocruz.

Nota técnica aponta alta probabilidade de formação do fenômeno ainda em 2026 e recomenda ações preventivas. Em Belém, a prefeitura planeja reduzir impactos à saúde e aos serviços públicos.

Belém pode enfrentar, nos próximos meses, um cenário de maior risco climático. A possibilidade de formação de um novo El Niño, com mais de 80% de probabilidade no segundo semestre de 2026, provocou um alerta da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para que estados e municípios reforcem a preparação antes que os impactos se agravem.

A recomendação está na nota técnica divulgada pelo Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz, elaborada em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O documento destaca que o fenômeno deve ser encarado como fator de aumento do risco climático e sanitário, e não como causa isolada de desastres.

Para a Amazônia, e em especial para Belém, o principal motivo de preocupação é a tendência de redução das chuvas, elevação das temperaturas, diminuição da umidade e aumento das queimadas, fatores que podem comprometer a qualidade do ar, favorecer doenças respiratórias, ampliar o risco de dengue e pressionar o sistema público de saúde.

A Fiocruz ressalta que os efeitos do El Niño variam conforme a interação com outros sistemas atmosféricos e oceânicos. Isso significa que o fenômeno pode coexistir com episódios de chuva intensa, como os registrados recentemente na capital paraense, sem que haja contradição entre os cenários.

O alerta ganha importância porque Belém já experimentou, neste ano, os efeitos dos eventos climáticos extremos. Em abril, o município decretou situação de emergência após um temporal superior a 150 milímetros em menos de 24 horas, mobilizando Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e diversos órgãos municipais para atendimento às famílias atingidas e recuperação das áreas alagadas.

Agora, a preocupação muda de foco. Caso o El Niño se confirme, especialistas projetam um segundo semestre com maior probabilidade de estiagem prolongada na Amazônia oriental, favorecendo queimadas, fumaça e redução dos níveis dos rios, situação que pode afetar o abastecimento de comunidades ribeirinhas, o transporte fluvial e o acesso a serviços de saúde.

A nota da Fiocruz recomenda que municípios ativem salas de situação climática e sanitária, revisem planos de contingência, reforcem estoques de medicamentos e ampliem a vigilância para doenças como leptospirose, diarreias, hepatite A, dengue, zika, chikungunya e infecções respiratórias.

Na Atenção Primária, a orientação é identificar previamente pacientes mais vulneráveis, como idosos, gestantes, crianças, pessoas com doenças crônicas, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e moradores de áreas de risco, garantindo continuidade do tratamento mesmo em situações de emergência.

Até o momento, a Prefeitura de Belém mantém estrutura permanente de Defesa Civil voltada à prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação diante de desastres. Nos últimos dias, também iniciou a elaboração de um Plano Municipal de Enfrentamento ao El Niño 2026-2027, reunindo 35 órgãos municipais, estaduais e federais para discutir medidas preventivas diante das projeções climáticas.

Para a população, os cuidados começam antes da ocorrência dos eventos extremos. A Fiocruz recomenda eliminar criadouros do mosquito Aedes aegypti, armazenar água de forma segura, evitar exposição prolongada ao calor e à fumaça, manter boa hidratação, acompanhar os alertas meteorológicos e procurar atendimento médico diante de sintomas como febre persistente, falta de ar ou sinais compatíveis com leptospirose após contato com água de enchentes.

Outra orientação é que moradores de áreas historicamente sujeitas a alagamentos ou isolamento conheçam previamente rotas de saída e acompanhem as informações da Defesa Civil e dos órgãos oficiais.

A experiência do El Niño de 2023 e 2024 reforça a necessidade de planejamento. Naquele período, o Brasil enfrentou desde a seca histórica na Amazônia até as enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul, além da maior epidemia de dengue já registrada nas Américas. Para a Fiocruz, esses episódios demonstram que os desastres decorrem da combinação entre fenômenos climáticos, vulnerabilidades sociais, infraestrutura insuficiente e ausência de ações preventivas.

Em uma cidade como Belém, marcada por áreas de baixada, ocupações vulneráveis, intensa influência dos rios e desafios históricos de drenagem urbana, o principal desafio será transformar os alertas científicos em ações concretas de prevenção. A mensagem da Fiocruz é clara: esperar que o desastre aconteça custa muito mais caro do que se preparar para ele.

Por Paulo Silber, portal Cidade 091/Imagem: Agência Pará de Notícias

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