Hit internacional adaptado por Valéria Paiva mostra como a música atravessa fronteiras e ganha o coração do público paraense
Tem gente que passa pela vida cantando. E tem gente que, quando canta, parece que a vida inteira resolve dançar junto. Bonnie Tyler era desse segundo grupo. Uma voz que não entrava no ouvido: entrava pela porta da frente, puxava uma cadeira e ficava morando na memória. Virou um clássico, é claro.
Aquela voz rouca, inconfundível, parecia ter saído de uma conversa com uma tempestade. Bonnie não cantava como quem apenas afinava notas. Ela cantava como quem tinha uma história para contar, talvez depois de tomar uns cafés, uma dose, enfrentar uns dramas e sobreviver a alguns capítulos difíceis do coração.
A mulher tinha uma voz tão diferente que, se cantasse a lista do supermercado, provavelmente alguém choraria no corredor do arroz. Era uma artista que não precisava de enfeite. Bastavam alguns segundos para todo mundo saber quem estava cantando. E não é que ontem, 8 de julho, essa voz marcante se calou, aos 75 anos? Bonnie Tyler deixa a lembrança de uma voz única, de uma artista que fez da própria diferença sua maior marca. Num mundo cheio de vozes parecidas, ela teve a coragem de soar como ela mesma.
Mas o mundo é grande, e a música tem seus próprios rumos. Um dia, uma dessas canções atravessou mares e desembarcou no Pará. Aqui, onde a alegria costuma ter som alto, luz colorida e vontade de dançar até o último acorde, a banda Fruto Sensual fez sua versão de “Total Eclipse of the Heart”, um clássico internacional, e ajudou a transformar aquela melodia em lembrança de festas, encontros e romances, na voz de Valéria Paiva. E a versão está viva como nunca, também marcante, no cenário do brega, tornando-se cult a ponto de tocar no festival Se Rasgum.
É curioso como funciona a música. Uma cantora do País de Gales pode acordar anos depois no meio de uma festa de brega paraense. A mesma voz que embalou plateias estrangeiras mundo afora passa a dividir espaço com o calor da noite amazônica e aquele momento em que alguém pede “só mais uma” porque a música ainda não acabou dentro da gente.
A versão do Fruto Sensual virou uma daquelas canções que não precisam de apresentação. Basta começar e alguém já olha para o lado, sorri e diz: “Essa eu conheço”. Minha esposa Didi é a prova disso, me dizendo agora mesmo, ao ouvir a versão: “Eu conheço!”. É quase uma senha secreta entre gerações.
Bonnie Tyler talvez nunca tenha imaginado que sua voz encontraria uma segunda vida tão distante de casa. Mas a música tem dessas travessuras bonitas. Ela pega um sentimento lá de longe, coloca numa mala sem endereço e entrega onde encontra espaço. No Pará, encontrou lugar de sobra. No coração do paraense.
Porque por aqui uma boa música não fica parada: ela ganha dança, ganha história, ganha lembrança e, principalmente, ganha o gosto do povo. Bonnie emprestou sua voz ao mundo. O Pará, com a ajuda do Fruto Sensual, emprestou a ela uma nova pista de dança.
O fato é que algumas canções não envelhecem. Elas apenas trocam de roupa, mudam de sotaque, até de endereço e continuam fazendo aquilo que sabem fazer melhor: juntar pessoas.
E se alguém, em algum canto do mundo, ainda pergunta qual é o segredo de uma voz rouca que conquistou tantos corações, a resposta talvez esteja numa pista de dança paraense, com o volume da aparelhagem lá em cima e alguém cantando junto.
Em homenagem a Bonnie, com sotaque paraense da banda Fruto Sensual, bora lá só tu: está no ar:
“E se você não quiser mais voltar
Te juro que eu vou cantar
Com toda força que há dentro do meu coração
Com todas as palavras que fiz essa canção
Ao mundo vou falar
Ao mundo vou cantar
Se não quiser me ouvir, ao mundo vou gritar:
Nunca deixei de te amar!”
Por Paulo Silber/Fotos: Reprodução








