quarta-feira, julho 8, 2026
Desde 1876

Algoz do Brasil na Copa, Noruega financia a Amazônia enquanto acumula desconfianças ambientais

Bilhões em doações reforçam a parceria com o governo brasileiro, mas casos como o de Barcarena expõem as contradições da presença do país nórdico na nossa floresta

Em 1998, a Noruega derrotou o Brasil por 2 a 1 na Copa do Mundo, em Marselha, numa das derrotas mais marcantes da seleção na fase de grupos de um Mundial. Quase três décadas depois, o placar se repete e tira a seleção patropi de campo. Mas, entre os dois países, vitórias e derrotas se medem menos pelo futebol e mais por uma relação diplomática e contraditória. Ela combina cooperação ambiental bilionária e controvérsias ligadas à atuação de empresas norueguesas na Amazônia.

A Noruega consolidou-se como o maior parceiro internacional do Brasil na conservação florestal. Em 2025, anunciou investimento de até US$ 3 bilhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo lançado na COP30 para financiar a preservação de florestas tropicais. Antes disso, já havia destinado cerca de R$ 3,8 bilhões ao Fundo Amazônia desde 2009, respondendo pela maior parte dos recursos recebidos pelo programa. Ao todo, mais de 60% da Amazônia estão em território brasileiro, cerca de 4,2 milhões de km², e a preservação do bioma tornou-se eixo central da parceria entre os dois países.

As relações, porém, vão além da pauta ambiental. Brasil e Noruega mantêm laços diplomáticos desde 1842, quando o navio Estrela do Norte atracou em portos brasileiros carregado de bacalhau e retornou à Europa com café. Hoje, mais de 230 empresas norueguesas atuam no mercado brasileiro, sobretudo nos setores de energia, navegação, fertilizantes e mineração. O Brasil é o principal destino de investimentos noruegueses fora da Europa e dos Estados Unidos.

O contraste aparece justamente aqui no Pará. Enquanto o governo norueguês financia a proteção da floresta, a Hydro, multinacional da qual o Estado da Noruega é o principal acionista, tornou-se protagonista de um dos maiores acidentes ambientais recentes da região. Em 2018, após fortes chuvas em Barcarena (PA), órgãos públicos apontaram irregularidades na refinaria Alunorte, incluindo o lançamento de efluentes não tratados e a existência de estruturas de drenagem não autorizadas. O episódio gerou ações civis, acordos com o Ministério Público e indenizações, embora a empresa sustente que não houve transbordamento de suas bacias de rejeitos e afirme ter adotado medidas corretivas e ampliado seus controles ambientais.

Os conflitos também se estenderam a comunidades de Barcarena e de outros municípios paraenses, com denúncias envolvendo contaminação de cursos d’água, impactos sobre populações tradicionais e disputas judiciais relacionadas à atividade minerária. Ao longo dos últimos anos, a Hydro firmou termos de ajustamento e programas de compensação, mas os episódios continuam a alimentar críticas de movimentos sociais e órgãos de fiscalização.

A relação entre Brasil e Noruega escapa das leituras simplistas. De um lado, o país escandinavo é o maior financiador internacional da proteção da Amazônia e um dos principais aliados do Brasil na agenda climática. De outro, parte dessa boa vontade diplomática convive com questionamentos sobre os impactos socioambientais de uma de suas maiores empresas em território brasileiro. Quer dizer: a parceria entre os dois países continua sendo marcada por um paradoxo: a Noruega ajuda a financiar a preservação da floresta ao mesmo tempo em que ainda enfrenta cobranças pelos danos associados à exploração de suas riquezas.

E, pra piorar tudo, vem o Haaland e põe a nossa seleção no chinelo. Como diria aquele personagem do Jô:

Por Paulo Silber, especial para o Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagem: Reprodução

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