Polícia planejava capturar a advogada na Itália, onde ostentava diárias de R$ 15 mil, mas prisão ocorreu logo após o desembarque no Brasil.
Imagens de câmeras corporais obtidas com exclusividade pelo Fantástico revelaram o momento exato em que a influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi acordada e presa pela Polícia Civil, na última quinta-feira (21). A ação ocorreu em sua residência, localizada em um condomínio de luxo em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo. Os agentes entraram no imóvel por uma das janelas e flagraram a influenciadora saindo do quarto de pijamas e com as mãos para cima.
A prisão é o resultado de uma investigação conjunta entre a polícia e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), que acusa Deolane de atuar como o “caixa” do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ela é suspeita de lavagem de dinheiro, associação com o tráfico de drogas e de integrar a facção criminosa.
Monitoramento internacional e ostentação em Roma
O avanço da operação policial coincidiu com uma viagem de mais de 20 dias de Deolane a Roma, na Itália. Hospedada em um prédio de luxo na região da Piazza di Spagna — com diárias que superam R$ 15 mil —, a influenciadora compartilhava a rotina da viagem nas redes sociais.
O que ela não sabia é que seus passos no exterior estavam sendo monitorados de perto pelas autoridades brasileiras e pela Interpol. A polícia chegou a planejar sua prisão em território italiano, mas Deolane acabou retornando ao Brasil na véspera da deflagração da operação, sendo detida logo ao desembarcar em São Paulo.
Movimentações de R$ 27 milhões e empresas fantasmas
Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, o crime organizado utiliza pessoas com grande número de seguidores para pulverizar e ocultar dinheiro ilícito. Um relatório financeiro aponta movimentações suspeitas ligadas a Deolane entre 2018 e 2022:
- R$ 13,6 milhões circularam por suas contas pessoais;
- R$ 14 milhões passaram por três de suas empresas.
A polícia classifica a origem dos valores como “espúria”, visto que a quebra de sigilo bancário quase não encontrou pagamentos decorrentes de contratos de publicidade. Além disso, foram identificadas empresas fantasmas em nome de Deolane localizadas no interior paulista, próximas ao presídio de Presidente Venceslau, dividindo o mesmo endereço com dezenas de outras firmas de fachada.
A origem da investigação: Bilhetes em Presidente Venceslau
O caso atual é o desdobramento de uma investigação iniciada em 2019, após a apreensão de bilhetes manuscritos na cela das principais lideranças da facção: os irmãos Marco Willians Herbas Camacho (Marcola) e Alejandro Camacho Júnior (Marcolinha).
As pistas levaram a polícia até uma transportadora vizinha à penitenciária, usada para lavar dinheiro e apoiar o tráfico internacional de cocaína. Em 2021, celulares apreendidos com os donos oficiais da empresa, Ciro César Lemos e sua esposa, revelaram mensagens explícitas sobre a relação deles com a cúpula do PCC.
Em uma das conversas, Paloma Camacho (filha de Marcolinha) orientava Ciro sobre repasses financeiros da transportadora. A polícia afirma que o casal funcionava como “laranjas” e mantinha contato frequente com Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como o gestor financeiro em liberdade da família de Marcola.
O Outro Lado: O que dizem os citados?
- Defesa de Deolane Bezerra: O advogado Aury Lopes Jr. afirmou que a influenciadora não possui qualquer vínculo ou conhecimento sobre a transportadora citada ou seus proprietários. Em audiência de custódia, Deolane declarou que todos os seus recebimentos são declarados e que os valores sob suspeita eram pagamentos legítimos por serviços prestados na época em que ela exercia a advocacia criminal.
- Defesa de Marcola: Contestou a inclusão do cliente no caso, sustentando que a acusação se baseia em supostos apelidos ditos por terceiros, sem provas diretas de participação na transportadora.
- Defesa dos filhos de Marcolinha (Paloma e Leonardo Camacho): Classificou as ordens de prisão como arbitrárias e afirmou que provará a inocência dos irmãos ao longo do processo.
- Demais citados: O advogado de Everton de Souza preferiu não se manifestar. Os representantes de Ciro César Lemos e Alejandro Camacho não foram localizados.
Após a realização da audiência de custódia, Deolane Bezerra foi transferida para o presídio feminino de Tupi, no interior do estado de São Paulo.














