Em “Matematicando”, a pesquisadora ligada à Universidade de Stanford (EUA) propõe ciência de dados e estimativas para tornar a matemática mais inclusiva, crítica e relevante
por Vinícius de Oliveira
A educação matemática, no Brasil e no mundo, enfrenta desafios que não serão superados com abordagens tradicionais, segundo Jo Boaler. Quem nunca ouviu um aluno dizer “eu sou ruim em matemática”? Ou já se pegou, como educador, tentando ensinar uma fórmula que a turma simplesmente não consegue entender ou sequer vê sentido em aprender?
Em entrevista ao Porvir, a pesquisadora britânica, vinculada à Universidade de Stanford (Estados Unidos) e autora do livro “Mentalidades Matemáticas” e do recém-lançado “Matematicando – Encontrando criatividade, diversidade e significado na matemática” (ambos da editora Penso), defende uma mudança radical no ensino da disciplina. Para ela, é preciso romper com a lógica da memorização e tratar a matemática como uma área conceitual, aberta à investigação, à criatividade e à conexão com o mundo real.
Uma das apostas da especialista é usar a ciência de dados para tornar a matemática mais relevante e estimular o pensamento crítico. Em “Matematicando” (lançado como Math-ish), Jo propõe o conceito do “número ish”, que valoriza estimativas e raciocínio conceitual em vez do foco exclusivo em fórmulas, ajudando os estudantes a desenvolverem senso numérico e a pensar matematicamente.
A pesquisadora que está no Brasil para uma série de eventos neste fim de agosto. Na conversa a seguir, ela também destaca a importância de os educadores revisitarem sua própria trajetória com a matemática. Para ela, superar traumas vividos com a disciplina é um passo fundamental para ensinar de forma mais empática e transformadora. Confira:

Porvir: Como o seu novo livro “Matematicando” se conecta e atualiza as publicações anteriores? E qual é a principal mensagem que ele transmite agora?
Jo Boaler: O livro “Matematicando” (“Math-ish”, em inglês) traz dados e pesquisas que não tínhamos em minhas publicações anteriores, então é uma atualização nesse sentido. Uma das ideias é o termo ish, para o qual, ouvi dizer, vocês não têm um equivalente em português. Mas ele é realmente sobre estimativa. Nos EUA, as crianças odeiam estimativa. Quando perguntamos a elas, “qual é o seu número ish?”, algo diferente acontece e elas se dispõem a participar e nos dar uma resposta. É um ótimo exercício porque, quando você tem um número ish, precisa estar pensando de forma conceitual. Com isso, você desenvolve o senso numérico e não se perde nos detalhes e procedimentos.
Porvir: Poderia exemplificar?
Jo Boaler: No livro, eu dou o exemplo de uma pesquisa em que estudantes de 13 anos nos EUA foram questionados sobre qual seria a resposta mais próxima para 12/13 + 7/8, com as opções de resposta sendo 1, 2, 19 ou 21, a resposta mais comum foi 19, seguida por 21. Suas respostas resultavam da adição dos numeradores (19) ou da adição dos denominadores (21). Apenas 24% deles escolheram a resposta correta, 2. Se tivessem sido formados a pensar de forma conceitual, perguntando “qual é o seu número ish?” antes de cada cálculo, isso os manteria pensando conceitualmente.
Porvir: Como o “número ish” tem sido recebido pelos professores e que impactos você já observa dessa prática em sala de aula?
Jo Boaler: Descobri que, quando os professores pedem aos alunos para compartilharem seus números ish, isso abre as salas de aula e os estudantes ficam mais dispostos a explicar seu raciocínio. Os professores concordam comigo que os estudantes sempre rejeitam estimar, e a estimativa fica em um lugar isolado no currículo. Nos EUA, por exemplo, ela é ensinada no 4º ano como um método, mas as crianças deveriam praticá-la o tempo todo, em todas as aulas de matemática. O ish trouxe isso para os professores, que estão adotando e perguntando aos seus alunos. Há outras coisas no livro, como a iniciativa da Califórnia de ensinar as Grandes Ideias (conceitos interligados que servem como base para organizar a aprendizagem da matemática de forma clara e consistente), em vez de focar em todos os métodos, o que você já conhece de meus outros livros. O livro é uma tentativa de pegar o que coloquei em “Mentalidades Matemáticas”, que escrevi há 10 anos, e atualizá-lo com novas pesquisas.
Porvir: No Brasil, apenas 5% dos estudantes que concluíram o ensino médio em 2023 alcançaram o nível de aprendizagem adequado em matemática. Em escolas privadas, a taxa foi um pouco mais alta: 30%…
Jo Boaler: Essa informação é terrível. 5% é muito triste. É um cenário parecido com o dos EUA, onde cerca de 30% dos alunos são proficientes em matemática.
| Desempenho baixo e desigualdades marcam cenário da matemática no Brasil |
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| Não é possível falar de inovação no ensino da matemática sem encarar os números preocupantes do Brasil. O estudo O cenário do ensino de matemática no Brasil: o que dizem os indicadores nacionais e internacionais, publicado pelo Todos Pela Educação e pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) a partir dos dados de 2023 do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), mostra que apenas 5% dos estudantes do 3º ano do ensino médio da rede pública alcançaram o nível de aprendizagem considerado adequado. As desigualdades sociais e raciais ficam ainda mais evidentes: entre estudantes brancos, 8% atingiram o patamar esperado, contra apenas 3% dos estudantes pretos. Esses dados refletem não apenas os desafios estruturais do sistema educacional brasileiro, mas também a urgência de metodologias que promovam equidade. Nesse cenário, Jo Boaler reforça a importância de aproximar a matemática da realidade dos estudantes, fazendo da disciplina uma ferramenta para desenvolver pensamento crítico e criatividade. Porém, reconhece que tais mudanças enfrentam resistências, especialmente de setores que defendem a manutenção de uma matemática “pura”, que historicamente beneficia apenas os mais privilegiados. Como alternativa prática, o site Youcubed, fundado por ela em Stanford, oferece recursos gratuitos que já chegam ao Brasil em versões traduzidas com apoio do Instituto Sidarta e da Fundação Itaú. Entre eles, as Conversas sobre Dados engajam os alunos em análises de gráficos e visualizações, transformando números em debates relevantes sobre o mundo em que vivem. |
Porvir: Na sua opinião, o baixo desempenho em matemática é causado principalmente pelo modelo de ensino, pela percepção da sociedade sobre a disciplina ou por uma combinação de ambos?
Jo Boaler: É uma combinação de fatores. E é exatamente por isso que mudar e melhorar essa realidade é tão desafiador. Estamos lidando com a sobreposição de diversas influências negativas.
Primeiro, há o mito persistente de que existe um “cérebro matemático”, uma ideia de que algumas crianças simplesmente “nascem” com ou sem aptidão para a matemática. Esse pensamento ainda é muito presente na sociedade. A ele se somam os estereótipos de raça e gênero, que limitam as expectativas sobre quem pode ou não se destacar na disciplina.
Além disso, quando a matemática é ensinada apenas como um conjunto de procedimentos a serem memorizados, muitos estudantes perdem o interesse e se desconectam do processo de aprendizagem, pois não conseguem enxergar sentido ou compreender o panorama geral daquilo que estão fazendo.
Todos esses fatores ainda estão muito presentes no cotidiano escolar e são mudanças essenciais que precisamos promover para transformar a forma como a matemática é ensinada e vivida.
Porvir: Em vez de repetir o que não funciona, como sua proposta de romper com essa lógica ajuda os alunos que enfrentam dificuldades em matemática?
Jo Boaler: Após uma reprovação ou um desempenho ruim em matemática, os estudantes são submetidos aos mesmos métodos que já haviam falhado. Isso os coloca em um ciclo contínuo de fracasso e isso acontece frequentemente.
Um dos estudos que menciono no livro, e que acabamos de concluir, envolveu entrevistas com estudantes do ensino fundamental, do 1º ao 5º ano, tanto de alto quanto de baixo desempenho. Descobrimos que os alunos com melhores resultados não sabiam mais do que os outros, mas utilizavam estratégias diferentes: abordavam os números de forma mais flexível. Já os estudantes com baixo desempenho, em geral, estavam focados apenas na memorização de métodos.
Sabemos que esses alunos não foram ensinados a enxergar a matemática como uma disciplina flexível, aberta à exploração e à compreensão conceitual. E, infelizmente, quando são identificados como “de baixo desempenho”, a resposta costuma ser sobrecarregá-los com ainda mais regras e fórmulas, o que, na prática, não ajuda em nada.
Já sabemos o que funciona para as crianças. O verdadeiro desafio é descobrir como aplicar esse conhecimento dentro dos sistemas educacionais.







