quinta-feira, janeiro 29, 2026
Desde 1876

LITERATURA – Mensagem à minha filha

Lá venho eu com meus choramingos. Mas, o que fazer se esta é minha natureza?

No domingo, 13, retornando de Salinópolis, onde passei o sábado, quando trafegava por uma parte da estrada onde existem várias barracas de vendas de espigas de milho verde cozido, assado e pamonhas, parei saudosamente, na barraca da “Portuguesa” (aquela moça branca e gorda, que tem uma bandeira de Portugal).

Para começar a barraca estava sem a dona.

Saltei e vi uma senhora correndo de outra barraca pra me atender. E respondendo minha indagação disse ser mãe da dita cuja e que ela não fora trabalhar.

Pedi uma pamonha e um copo de café e passei, como você sabe, a deliciar-me com tão simplório alimento. Lembrei-me agora da “Oração do Milho”, de Cora Coralina.

Por um momento tive a ilusão que tu e teu irmão, amados filhos, ainda crianças e adolescentes, estavam ali. E rapidamente voltando à realidade, ofereci aquela iguaria à minha então acompanhante e esta respondeu que não gostava daquilo.

Enquanto isso eu lambia os dedos e gania, degustando meu delicioso bolo “do grão humilde e necessário nascido onde não vinga o trigo nobre”, como redigiu a escritora.

Foi então que viajei ao passado e me vi parando naquele local em variadas vezes, em felizes e exaustivos retornos de nossas chamadas aventuras salinescas. Vai ser assim na minha vida, aqui e acolá recordando aquele nosso indelével tempo.

Tempos incríveis (plagiando aquele seriado), saudosa e carinhosamente guardados no “Museu da Terra do Coração”.

Logo depois prossegui a viagem sem ninguém a meu lado, pois minha então companhia resolvera ir para o banco de trás cochilar.

Imagine minha filha, só você, que é sangue do meu sangue e carne da minha carne, herdeira de meu código genético, pode compreender que falta faz a nós uma boa conversa. Pois é, imagine-se sem esse linimento?

Mexi no retrovisor de modo que tal companhia (?) não pudesse ver as lágrimas que teimosamente passaram a rolar, contrastando com meu sorriso, recordando situações felizes.

Ah meu Deus, obrigado por ter me proporcionado aqueles tempos maravilhosos!

E continuei a viagem à Castanhal, absorto em meus pensamentos, conversando comigo mesmo, sentindo falta das tuas gargalhadas e das tuas discussões com o teu mano, até chegar ao meu destino.

Se tivesse que fazer alguns reparos, um deles seria tirar aquelas insanas lambadas que dei na doce Millie, naquela viagem à Bragança. Me faz um favor, agora, dá um abraço nela e sussurra em seus ouvidos que me arrependo muito e pede para mim seu perdão. E mais um favorzinho: dá um “chelinho” naquela “coginha” doce e faz uma “baliguinha” na minha inesquecível “Pepetinha”.

Arre, chega de saudade por enquanto!

Vou parar por aqui para ler o jornal de domingo.

Um afetuosíssimo abraço do pai que tanto te ama.

(Castanhal, 14/06/99 às 02h25).

Por Roberto Pimentel*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ

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