Eldilene e Nelson, vitimas de etarismo na Ufra, jovem de mais ou velho de mais para concorrer as eleições para reitoria?
O que começou como uma disputa eleitoral pela Reitoria da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) ameaça se transformar em uma batalha judicial com acusações graves de discriminação etária. Nos bastidores da campanha, aliados da chapa Eldilene Barbosa–Raimundo Nelson já discutem a possibilidade de acionar judicialmente os autores do pedido de impugnação que tenta retirar o professor Raimundo Nelson da disputa pela Vice-Reitoria por uma razão considerada estarrecedora por parte da comunidade acadêmica: sua idade.
O documento protocolado perante a Comissão Eleitoral sustenta que o professor não poderia concluir integralmente o mandato em razão da aposentadoria compulsória prevista para servidores públicos aos 75 anos. Embora o texto procure afastar qualquer acusação de preconceito, o centro da argumentação permanece inalterado do início ao fim: Raimundo Nelson não deveria disputar porque é idoso.
A reação dentro da universidade foi imediata. Professores, técnicos e estudantes passaram a enxergar na iniciativa um caso emblemático de etarismo, prática definida como discriminação baseada na idade. O episódio ganhou contornos ainda mais explosivos porque ocorre justamente após a divulgação de pesquisas internas que apontam a chapa Eldilene-Raimundo Nelson na liderança da corrida eleitoral.
Para muitos integrantes da comunidade universitária, a discussão jurídica apresentada no pedido de impugnação seria apenas uma tentativa sofisticada de conferir aparência legal a um argumento cuja essência permanece discriminatória.
A questão não é trivial. O ordenamento jurídico brasileiro não trata o etarismo como simples inconveniência moral. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece proteção expressa contra práticas discriminatórias motivadas pela idade. O artigo 96 prevê punição para quem discriminar pessoa idosa ou dificultar o exercício de seus direitos de cidadania em razão da idade. A legislação também prevê sanções para condutas que envolvam humilhação, menosprezo ou discriminação contra idosos.
É justamente nesse ponto que o caso começa a produzir inquietação jurídica. Entre apoiadores da chapa atingida, cresce a avaliação de que impedir ou tentar impedir a participação política e eleitoral de um professor exclusivamente por sua condição etária pode abrir espaço para questionamentos judiciais envolvendo danos morais, discriminação e violação de direitos da personalidade.
O episódio produz uma pergunta desconfortável para a própria universidade: desde quando a experiência passou a ser tratada como defeito? Universidades são, por definição, espaços em que a trajetória intelectual, a produção científica e a experiência institucional possuem valor. Ao transformar a idade em argumento central para afastar um candidato, o pedido de impugnação acabou produzindo um efeito colateral devastador. Não atinge apenas Raimundo Nelson. Atinge simbolicamente todos os docentes, pesquisadores e servidores idosos que continuam contribuindo para a vida acadêmica brasileira.
Críticos da medida observam que o raciocínio poderia abrir um precedente perigoso. Se a idade se torna fator determinante para afastar lideranças universitárias, qual será o próximo passo? Impedir pesquisadores seniores de ocupar cargos estratégicos? Criar limites informais para participação política dentro da universidade? Reduzir décadas de produção acadêmica a uma simples data de nascimento?
Não é nada honroso, para a chapa proponente, tentar impedir o avanço de um idoso para o topo de sua carreira acadêmica, somente por ser idoso. A indignação aumentou porque o próprio pedido reconhece que não há questionamento sobre a capacidade intelectual, acadêmica ou administrativa do candidato. A única condição apontada como obstáculo é a idade. E é exatamente essa circunstância que alimenta as acusações de etarismo.
Nos corredores da UFRA, a sensação predominante é que a disputa eleitoral atravessou uma linha perigosa. O debate deixou de ser sobre projetos para a universidade e passou a flertar com um critério que a sociedade moderna tenta superar há décadas: a exclusão baseada em características pessoais.
Se a impugnação pretendia enfraquecer uma candidatura, pode ter alcançado o efeito contrário. Ao colocar a idade no centro da disputa, o episódio transformou a eleição da UFRA em um debate nacional sobre preconceito, cidadania e respeito à trajetória de quem ajudou a construir a universidade pública brasileira.
E há uma ironia impossível de ignorar: ao tentar retirar um professor da disputa por ser considerado velho demais para governar, os autores da ofensiva acabaram oferecendo ao país uma aula involuntária sobre como o etarismo ainda sobrevive. Não mais em discursos explícitos, mas escondido atrás de argumentos que mudam de forma, sem abandonar o mesmo preconceito de origem.
A reportagem aguarda por um posicionamento na comissão eleitoral acerca do assunto.
Por Paulo Silber/Imagem: Reprodução










