Uma partida da Série A3 do Campeonato Paraense de 2025, se transformou no centro de uma investigação policial que pode revelar um dos casos mais graves de interferência externa na arbitragem do futebol local. A Delegacia de Proteção ao Torcedor e de Grandes Eventos instaurou inquérito, atualmente sob sigilo, para apurar possível fraude na alteração de uma súmula oficial da partida— documento que registra todos os acontecimentos de um jogo.
O caso envolve a partida entre Santos-PA e Paraense-PA, disputada no dia 06 de novembro de 2025, válida pela segunda rodada das quartas de final da competição. Durante o confronto, marcado por uma confusão generalizada entre atletas, o árbitro Olivaldo José Alves Moraes, expulsou diversos jogadores.
Mudança posterior levanta suspeitas
Um dia após o jogo, em 7 de novembro, a súmula foi publicada no site oficial da Federação Paraense de Futebol (FPF-PA), apontando a expulsão do jogador camisa nº. 10 do Santos-PA. No entanto, quatro dias após a partida, em 10 de novembro de 2025, uma nova versão da súmula surgiu com alteração significativa: o cartão vermelho foi transferido para outro atleta da mesma equipe, o número 15 do Santos-PA.
A mudança ocorreu quatro dias após a partida do dia 06.11.2025 e as vésperas da primeira partida da semifinal entre Santos-PA x Belenense-PA, o que levanta questionamentos sobre a legalidade do procedimento. A Lei Geral do Esporte, em seu artigo 195, obriga que, a súmula deve ser entregue em até quatro horas após o término do jogo, podendo ser complementada em até 24 horas apenas em situações excepcionais.
A alteração fora prazo e é um dos principais pontos investigados pela Polícia Civil, que apura possível enquadramento no artigo 200 da mesma lei, que trata de fraude em competição esportiva, com pena prevista de dois a seis anos de reclusão, além de multa.
Árbitro alega erro, mas versões entram em conflito onde em depoimento prestado ao Tribunal de Justiça Desportiva do Pará (TJD-PA), o árbitro Olivaldo Moraes, afirmou que houve um equívoco no preenchimento da súmula, justificando que os dois jogadores teriam características físicas semelhantes.
Segundo ele, a correção foi feita após contato com o delegado da partida. No entanto, essa versão é contestada, pois o próprio delegado da partida, em relatório oficial, negou ter sugerido qualquer alteração de cartão. Além disso, uma ata notarial apresentada pelo Grêmio Desportivo Carajás Belenense registra conversa em que o delegado reafirma não ter orientado a mudança do cartão vermelho.
Outro ponto que fragiliza a justificativa é a alegação de que os atletas seriam parecidos fisicamente — informação contestada por envolvidos no processo.
Áudios indicam possível pressão externa do Presidente da Comissão de arbitragem do Pará, onde Gravações atribuídas ao árbitro e a colegas de arbitragem, a mudança do cartão vermelho pode ter sido influenciada pelo Presidente da Comissão de arbitragem. Em um dos trechos, o árbitro afirma ter recebido ligações do Presidente da Comissão de arbitragem do Pará e instrutor da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), identificado como Fernando Castro, e na conversa, o árbitro relata insistência para que revisasse a decisão e admite que fez um adendo à súmula dias depois da partida. Em outro momento, um interlocutor alerta que ele teria sido colocado em uma “situação complicada” por conta dessa intervenção.
Os diálogos também levantam dúvidas sobre o momento da suposta revisão, indicando que a decisão pode ter sido tomada após análise de vídeos e repercussão do lance — e não de forma imediata, como prevê a lei.
IMPACTO DIRETO NA COMPETIÇÃO
A alteração da súmula teve consequência prática relevante. O jogador inicialmente expulso, ficou liberado para atuar na partida seguinte, realizada em 11 de novembro, contra o Grêmio Desportivo Carajás Belenense.
O clube, que acabou prejudicado esportivamente, ingressou com representação criminal contra o árbitro e contra o presidente da Comissão de Arbitragem do Pará. A representação sustenta que a mudança indevida permitiu a participação do atleta inicialmente expulso, influenciando diretamente o resultado esportivo.
QUEM SÃO OS INVESTIGADOS
Segundo as informações, estão na condição de investigados:
• O árbitro da partida, Olivaldo José Alves Moraes, vinculado à FPF-PA e à CBF;
• Fernando Castro, presidente da Comissão de Arbitragem do Pará e instrutor da CBF.
A apuração busca esclarecer se houve atuação coordenada para alterar documento oficial com impacto direto na competição.
A FPF-PA e o Belenense, nesse caso, são vítimas
Não há confirmação de envolvimento institucional da Federação Paraense de Futebol no caso. Pelo contrário, a linha inicial aponta que a entidade foi vítima, podendo ter sido utilizada como meio para formalizar uma alteração irregular da súmula.
A publicação das duas versões da súmula no sistema oficial da FPF, no entanto, levanta questionamentos sobre os mecanismos de controle e validação desses documentos.
Especialistas em direito desportivo ouvidos sob reserva avaliam que, caso se confirme a atuação individual dos investigados, a entidade pode ser considerada vítima do processo. Porém, se ficar comprovada falha sistêmica ou conivência, a responsabilização pode se ampliar.
INVESTIGAÇÃO SEGUE SOB SIGILO
O inquérito conduzido pela Polícia Civil segue em andamento e sob sigilo. A expectativa é que novas oitivas e análise pericial de documentos e áudios possam esclarecer o grau de responsabilidade de cada envolvido.
O caso já repercute nos bastidores do futebol paraense e levanta um debate mais amplo sobre transparência, governança e credibilidade da comissão de arbitragem, especialmente nas divisões de acesso, onde o controle institucional tende a ser mais frágil.
Se confirmadas as irregularidades, o episódio pode resultar não apenas em sanções criminais, mas também em punições desportivas e administrativas, com potencial impacto duradouro no cenário do futebol local, onde os responsáveis poderiam serem banidos do futebol.

Da Redação/Imagens: Ray Nonato








