Há notícias que chegam como se o mundo tivesse cometido um erro de edição. A palavra parece deslocada, a frase não encontra lugar na página, e a realidade demora alguns segundos, às vezes décadas, para caber dentro da gente.
Foi assim naquele julho de 1990.
Cazuza morreu cedo demais. Essa é uma frase que o tempo não conseguiu corrigir. Há pessoas que imaginamos envelhecendo conosco, dividindo as pequenas reclamações da idade, as rugas, as manias, as histórias que o futuro ainda guardaria.
Cazuza não teve esse encontro.
Ou talvez tenha tido outro.
O futuro dele foi permanecer jovem.
Na sexta-feira anterior, eu havia fechado a matéria de capa do caderno de Artes de O Liberal. O assunto era uma homenagem a Cazuza: um show que aconteceria no sábado, uma celebração de sua música e da presença de um artista que ainda estava entre nós.
Mas a vida, às vezes, escreve suas próprias manchetes.
No sábado, o mesmo dia do show, chegou a notícia de sua morte.
Lembro da corrida de volta para a redação, da sensação de que aquela página, preparada para celebrar, já não poderia permanecer como estava. Era preciso mudar o rumo, encontrar outras palavras, fazer o jornal conversar com a nova realidade.
No jargão gráfico da época, consegui “mexer só no preto”: reescrever a matéria, mudar o título, ajustar a página praticamente no limite de virar fotolito.
Foi um daqueles momentos em que a velha expressão “parem as máquinas” deixava de ser apenas uma frase de cinema. Era a vida interrompendo a rotina do jornal e pedindo passagem.
Naquele domingo, a matéria publicada não foi a escrita na sexta, mas a substituta, feita no próprio sábado que o poeta fechou o riso. Escrita às pressas, mas com emoção genuína.
Era a imagem possível diante daquela despedida: o homem que transformava inquietação em música, que fazia do próprio coração uma praça pública, que parecia recolher sua gargalhada.
Hoje, olhando para trás, penso que aquela frase estava certa e errada ao mesmo tempo.
O poeta fechou o riso do homem. Mas abriu o riso da obra.
Porque Cazuza continuou por aí.
Continuou nos quartos de adolescentes descobrindo que alguém, antes deles, já havia encontrado palavras para aquela mistura de desejo, medo e esperança chamada juventude. Continuou nas mesas de bar, nas madrugadas, nos encontros em que alguém aumenta o volume de uma canção para dizer aquilo que sozinho não consegue dizer.
Ele tinha esse dom raro: transformar suas próprias tempestades em abrigo para os outros.
Cantou o amor sem esconder suas contradições. Cantou o país sem aceitar respostas fáceis. Cantou a vida com seus excessos, suas quedas e suas reinvenções. Nunca quis parecer perfeito. Quis ser inteiro.
E ser inteiro dá trabalho.
Trinta e seis anos se passaram. O mundo mudou de velocidade. As redações mudaram. Os jornais mudaram. A notícia, que antes esperava a tinta secar e o papel sair da máquina, hoje atravessa telas em segundos.
Mas algumas coisas permanecem.
Ainda buscamos uma canção quando faltam palavras. Ainda procuramos nos versos de alguém aquilo que não conseguimos dizer sozinhos. Ainda precisamos de artistas capazes de transformar inquietação em companhia.
Nessas horas, Cazuza aparece.
Não é a lembrança de um passado distante. É presença.
Os grandes artistas têm esse estranho privilégio: não pertencem apenas ao seu tempo. Eles atravessam gerações. Alguém que nasceu depois da partida de Cazuza pode ouvir uma canção dele hoje e sentir que ela foi escrita para aquele exato momento.
Talvez porque os poetas saibam uma coisa que a morte desconhece: o tempo passa, mas não leva tudo.
Algumas palavras ficam. Algumas melodias ficam. Algumas pessoas encontram outra maneira de permanecer.
Naquela noite de fechamento, eu pensava que o poeta havia fechado o riso.
Hoje entendo que ele apenas mudou de palco.
Aquela página de jornal precisou ser refeita às pressas. O preto da impressão mudou. O título mudou. A notícia mudou.
Mas Cazuza continuou sendo escrito em outro lugar.
Na memória de quem o ouviu. Nas vozes de quem ainda o canta, como eu mesmo, na solidão do banho com minha grave voz desafinada. Nos corações de quem descobre, geração após geração, que o tempo não para, e que a poesia, quando verdadeira, encontra sempre uma forma de ficar.
Por Paulo Silber/Imagem: Reprodução






