Parece que uma das minhas sinas é fazer minhas mulheres, incluindo mãe, irmãs e filha, esperarem por mim. Ou será que a sina é delas? Não sei se nasci assim. O certo é que me conheci assim. Sou desorganizado, distraído e impontual. Se alguma mulher me esperarasse, que acrescentasse pelo menos uma hora além do combinado. Vou parando pelo caminho, aqui e acolá, sem me dar conta de meus compromissos. Quem me quiser é assim. Sou o oposto do lorde britânico.
Até sem relógio estou no momento. Deve ser herança genética de algum amazônida distante, despreocupado com a pontualidade. Hoje, não ontem, mais uma vez deixei minha filha esperando pelas felicitações no dia de seu aniversário. Até que me lembrei da data na véspera, quando à noite vi crepitando na minha rua uma fogueira de São João. Lembrei quando ela era criança, em um de seus aniversários, após os parabéns, quando estávamos em frente a nossa casa, eis que passava uma quadrilha junina que a convite meu e de sua mãe dançou em sua homenagem.
Lembro que quando ela estava com seus três anos, algumas vezes pela manhã eu a deixava na casa de meus pais. Ali ela passava o dia, quando minha mãe em seus momentos de folga da faina diária aproveitava para alfabetizá-la, enquanto eu ganhava as ruas para exercer meu então ofício de vendedor. Retornava à tarde e a encontrava me esperando na janela para irmos para casa.
Imagino agora a ansiedade dela, a espera para retornar ao lar e rever sua mãe e seu irmãozinho. Minha mãe me pedia no início da tarde, depois do almoço, quando eu saia para a labuta, que não demorasse, pois lhe cortava o coração vê-la pregada na janela com os olhos em direção ao ponto de ônibus esperando eu surgir para apanhá-la. E quando isso ocorria, lá íamos nós dois, com ela em meus braços ou nos ombros, conversando alegremente até chegar em casa. Depois era no colégio. Quantas vezes fui apanhá-la já no turno da tarde, quando deveria ser por volta do meio-dia. E assim com o passar dos anos. É certo que depois eu tinha que me desculpar diante de suas duras reclamações. Quanto eu não daria para entrar no túnel do tempo e voltar num daqueles dias? Posso parecer piegas e repetitivo, mas gosto de recordar o final da madrugada daquele 25 de junho quando ela chegou. Eu que não tivera irmão, esperava um menino para me acompanhar, mas em lugar veio uma pequenazinha (pêzinha, como se referia meu saudoso pai) esperta, de olhos abertos, vestida com um casaquinho branco estampado com âncoras azuis. Uma navegadora para singrar estes mares de meu Deus!
Mas, voltando ao dia de ontem, pela manhã eu pensei em telefoná-la. Como estava em cima da hora, resolvi que telefonaria do trabalho. O dia passou e à noite, quando retornava para casa telefonei, mas ela não estava. Fora a um shopping, mas estava de volta. Quando já estivesse em casa lhe telefonaria. E ao chegar, tive que sair às pressas. Como meu celular não presta, restou-me o telefone público, quando então, por volta das vinte e duas horas, pude finalmente parabenizar minha filha por mais um ano de vida e desejar-lhe saúde, paz e sabedoria. Antes tarde do que nunca, foi o adágio que usei para desculpar minhas congratulações quase tardias que ela ternamente aceitou-as. E demos boas gargalhadas. E este texto eu faço já na madrugada de 26. Mas, no ano vindouro eu espero me consertar. Prometo que tentarei logo pela manhã desejar, se Deus assim permitir, um feliz aniversário!
Belém, 26/06/2002
Por Roberto Pimentel
*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ







