sábado, maio 16, 2026
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Brasil avança em terapia revolucionária contra câncer que custa até R$ 4 milhões por dose, mas pacientes ainda morrem esperando acesso

Tratamento que ‘reprograma’ células de defesa do próprio paciente já consegue fazer tumores desaparecerem em casos agressivos, mas especialistas apontam desigualdade, judicialização e gargalos logísticos no país.

Por Talyta Vespa, g1

Uma terapia capaz de “reprogramar” células do sistema imunológico para atacar o câncer vem mudando o destino de pacientes com alguns dos tumores mais agressivos do sangue. No Brasil, entretanto, o acesso ao tratamento ainda esbarra em filas, disputas judiciais, falta de estrutura e até dificuldades de transporte em um país continental.

terapia CAR-T, considerada uma das maiores revoluções recentes da oncologia, já mostrou taxas de resposta que chegam a 80% em alguns tipos de câncer hematológico. Em mais da metade dos casos, os tumores desaparecem completamente, com remissões que podem durar anos.

Mas um estudo publicado na revista científica Frontiers in Hematology mostra que, apesar do avanço, muitos pacientes brasileiros ainda não conseguem chegar ao tratamento a tempo.

“Parte dos pacientes sequer consegue chegar ao tratamento: muitos pioram clinicamente ou morrem antes de obter acesso à CAR-T”, afirma o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, um dos autores do trabalho.

O estudo reúne especialistas em oncologia, saúde pública, regulação sanitária, defesa dos pacientes e direito à saúde para mapear os principais entraves da terapia no Brasil. Entre os autores estão médicos pioneiros no uso da CAR-T no país, representantes de entidades de pacientes, ex-integrantes do Ministério da Saúde e um ex-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Hoje, o Brasil é o único país da América Latina com acesso estruturado à terapia CAR-T.

Entenda como funciona a terapia Car-T, que pode revolucionar o tratamento contra o câncer

O que é a CAR-T

A terapia CAR-T funciona como uma espécie de engenharia do sistema imunológico.

Primeiro, médicos retiram linfócitos T —células de defesa do próprio paciente— do sangue. Em laboratório, essas células passam por uma modificação genética que as transforma em versões capazes de identificar e atacar células tumorais específicas. Depois, elas são reinfundidas no organismo.

Stefani compara o processo à criação de um “super soldado” imunológico.

“Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo”, explica.

Hoje, o tratamento é aprovado no Brasil para alguns tipos de leucemia, linfoma e mieloma múltiplo. O país já tem quatro terapias CAR-T aprovadas entre 2022 e 2024.

car-t — Foto: Hemocentro de Ribeirão Preto (USP)/arte g1

car-t — Foto: Hemocentro de Ribeirão Preto (USP)/arte g1

Símbolo da oncologia moderna

Segundo os autores do estudo, o impacto clínico do tratamento transformou a CAR-T em um dos maiores símbolos da oncologia moderna.

Stefani relembra o caso de uma paciente que participou dos primeiros estudos internacionais da terapia.

“Uma das cenas mais emocionantes que vivi na oncologia foi ver uma paciente tratada com CAR-T voltar anos depois perguntando se já poderia engravidar”, conta Stefani. “Era uma jovem com leucemia que antes não tinha perspectiva de sobreviver. Anos depois, ela estava planejando ter filhos.”

Custo milionário e acesso desigual

Apesar dos resultados, o acesso continua extremamente limitado.

O estudo aponta que o custo do tratamento pode ultrapassar US$ 500 mil por paciente —o equivalente a cerca de R$ 2,8 milhões na cotação atual.

Em entrevista ao g1, Stefani afirma que alguns tratamentos hoje chegam perto de R$ 4 milhões em dose única.

Além do preço da terapia, o tratamento exige centros altamente especializados, equipes treinadas e uma estrutura hospitalar complexa.

“Não basta ter dinheiro para pagar. É preciso ter estrutura instalada e profissionais adequadamente treinados”, diz o oncologista.

No setor privado, o desafio é o impacto financeiro para operadoras de saúde. No Sistema Único de Saúde (SUS), os autores apontam ausência de modelos específicos de financiamento e incorporação da terapia.

O resultado é que muitos pacientes acabam recorrendo à Justiça para tentar obter acesso ao tratamento.

“Hoje, 100% dos casos brigam judicialmente e ganham”, afirma Stefani.

Para ele, o modelo atual acaba criando desigualdade.

“A judicialização não conserta o sistema. Ela conserta o problema daquele paciente.”

O desafio de fazer CAR-T em um país continental

O estudo também chama atenção para dificuldades pouco discutidas fora do meio médico: a logística.

Atualmente, parte das células coletadas de pacientes brasileiros precisa ser enviada para laboratórios no exterior, como Estados Unidos e Holanda, antes de retornar ao país para a aplicação da terapia.

Em um país continental, isso cria obstáculos extras.

“Em algumas regiões do país, haverá pacientes que precisarão passar até dois dias em um barco para chegar a um centro habilitado”, afirma Stefani.

Segundo ele, até problemas em conexões aéreas podem comprometer o processo.

“Uma falha logística simples, como a perda de uma conexão aérea, pode comprometer todo o material biológico do paciente”, diz.

O estudo defende que o país precisa criar protocolos nacionais, ampliar centros habilitados, desenvolver sistemas de acompanhamento de pacientes e investir em modelos de financiamento específicos para terapias de alto custo.

Produção nacional pode reduzir custos

Entre as apostas para ampliar o acesso está a produção brasileira da terapia.

O estudo cita iniciativas lideradas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Câncer (INCA), Universidade de São Paulo (USP) e parceiros internacionais para desenvolver versões nacionais da CAR-T.

A expectativa é reduzir custos e diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros.

Segundo Stefani, experiências de países como Índia e China já apontam possibilidade de reduzir os custos em até dez vezes, embora o tratamento continue caro mesmo nesses cenários.

Para os autores, o Brasil pode se tornar uma referência regional em terapias celulares avançadas —mas isso dependerá de investimento em infraestrutura, qualificação profissional e reorganização do sistema de saúde.

“Não basta a terapia funcionar. Ela precisa caber na realidade brasileira”, resume Stefani.

 Foto: TV Globo/Reprodução

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