Por Roberto Pimentel
Nunca entrei em pânico ou depressão diante de grosserias, zombarias, caçoadas, desde a escola e colégio, seguindo instruções de meu pai. E assim foi quando servi às Forças Armadas por oito anos, na década de 70, passando a maior parte do tempo (sete anos) no Parque de Material Aeronáutico (PAMA), onde atualmente funciona o Palácio do Governo Estadual.
Condutas que atualmente ensejam processos criminais e civis, naquele tempo (século passado) a gente tinha que superar, enfrentar as afrontas e encarnações de superiores e colegas, principalmente os mais antigos, tudo numa boa, sem reagir grosseira ou violentamente.
Faço parte de um grupo de colegas contemporâneos daquele tempo de caserna, atualmente aposentados, seja como servidores públicos estaduais e federais, dentre os quais, aposentados do Banco Central, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal e outros órgãos públicos, havendo empresários, advogados, professores e de outras atividades laborais, sendo que alguns prosseguiram na vida militar, chegando à reserva remunerada (aposentadoria militar).
E a gente já se encontra há vários anos, pelo menos uma vez por ano, para um almoço ou jantar, pois o tempo que passamos juntos criou uma espécie de irmandade.
E nesses encontros são recordados fatos notórios e situações engraçadas, levando todos a uma reflexão e às vezes aos risos.
Em um desses encontros, um colega que se tornou professor, pegou o microfone, olhou a todos os presentes – colegas e suas esposas e alguns filhos – parando o olhar em mim e com o dedo em riste, mas de forma risonha e amável, falou que ali estava um cara que levava tudo na graça, não se abatia diante de atos desagradáveis, passando a contar um episódio no qual fui protagonista ou coadjuvante, dizendo de início que eu merecia ganhar um Oscar, levando os presentes a ficarem atentos ao que ele iria narrar.
Chegara para servir, naquela unidade militar, um capitão aviador, lembrando que muitos oficiais aviadores se consideravam o sangue azul das categorias, entre as quais, intendentes, infantes, especialistas em manutenção, engenheiros e outros.
Aquele capitão inicialmente ficou alguns dias na Divisão de Pessoal, provavelmente para se inteirar dos setores existentes na área daquele órgão militar e dias depois foi designado pelo comando a dirigir a Divisão de Manutenção que funcionava no hangar, local de manutenção de aeronaves de então, principalmente “Douglas” (C-47) e “Catalinas”.
Oportuno mencionar que aquele hangar de manutenção se tornou décadas depois o atual Hangar Centro de Convenções, tendo sido aberta uma via que liga a avenida Júlio Cézar a avenida Duque de Caxias, que foi denominada Brigadeiro Protásio, que foi comandante do então 1º Comando Militar da Aeronáutica (Comar), que passa ao lado do atual centro de convenções, onde eu e colegas tiramos muitos plantões noturnos e diurnos e noturnos em feriados, sábados e domingos.
Bem, voltando ao capitão aviador, passados alguns dias de direção, como ele não conseguiu ou não quis decorar o nome de dezenas de praças (cabos e soldados) que ali trabalhavam sob seu comando, quando chamava-os, gritava: “ei vagabundo, vem cá”.
E era vagabundo pra cá, vagabundo pra lá, tendo os praças que engolir essa forma de tratamento, lembrando que essa palavra é originária do latim – “vagabundus”, que significa errante, sem destino. E, em nossos dicionários, aquele que é vadio, não quer ou não gosta de trabalhar. E, na forma pejorativa, aquilo que apresenta péssima qualidade ou inferior. E o pessoal assim tratado não gostava e se sentia ofendido, mas não reagia.
E um dia, no horário de almoço, quando os praças esperavam em fila a abertura do rancho, as conversas variavam, tratando dos mais diversos assuntos, inclusive futebol, festas, filmes, músicas. Mas, o assunto mais comentado era o tratamento dado pelo capitão aos praças, chamando-os de vagabundos.
Quando tive oportunidade, falei que se ele me chamasse de vagabundo eu também o chamaria da mesma forma. Os colegas riram e disseram que eu dizia isso porque trabalhava em setor administrativo, longe do hangar. E se eu chamasse o capitão de vagabundo iria parar no xadrez.
Continuei dizendo que se fosse chamado de vagabundo também chamaria o capitão da mesma forma.
Mas, o tempo tem situações inesperadas.
No início de setembro daquele ano foi marcado o treinamento para a marcha de 07 de setembro, o “Dia da Independência”, que as Forças Armadas faziam ou ainda fazem na Avenida Presidente Vargas, desta capital.
E esse treinamento era feito na área da Base Aérea, em Val-de-Cans. E naquele ano aquele capitão fora designado para comandar esses treinamentos de marcha, pois, também seria o porta-bandeira da tropa. E eu fora um dos designados para integrar o pelotão de porta-bandeira.
E assim fomos à Base Aérea em ônibus do quartel. E quando lá chegamos, enquanto recebíamos as instruções, em dado momento, o capitão que estava a uns vinte metros de onde eu estava, gritou: “ei vagabundo”!
Aos olharmos, ele apontou pra mim e acenou com a mão direita para ir até ele. Saí imediatamente, dando um pique e ao chegar junto a ele me pus em posição de sentido. E ao fazer continência, respondi: “pronto magnifico chefe”! Ele respondeu a minha continência e ordenou que eu fosse buscar o talabarte que ele usaria para prender a vara da bandeira brasileira, que estava em uma picape estacionada a uns 200 metros. Sai correndo, peguei o talabarte e voltei correndo. E ao chegar junto ao capitão eu disse: “pronto grandioso chefe”! Em seguida desloquei-me até o meu pelotão.
Foi realizado o treinamento e mais tarde retornamos ao nosso quartel.
Quando estávamos no ônibus, um colega me interpelou, dizendo que eu tinha dito que iria chamar o capitão de vagabundo, entretanto, não cumpri o que prometera.
Respondi que eu chamara sim ele de vagabundo.
Um outro colega me contradisse, dizendo que estava próximo e mim e não ouviu eu chamar o capitão de vagabundo.
E a seguir vários colegas se manifestaram da mesma forma, dizendo que ouviram eu chamar o capitão de grandioso e magnifico chefe.
Eu ri e respondi dizendo que quem é chefe de vagabundo também é vagabundo. Portanto, indiretamente, eu o chamara de vagabundo. Os colegas passaram a rir sacudindo a cabeça, outros batendo nos meus ombros, num gesto de concordância e até elogio.
Bem, a partir daquele dia, todo praça que era chamado de vagabundo por aquele capitão respondia daquela forma, criando outros adjetivos além de magnifico e grandioso.
Mas, sempre tem um bajulador, também chamado de puxa-saco, que pra querer tirar algum proveito, age como agiu um militar, parece que um sargento, dizendo ao capitão de como estavam se portando os praças.
O capitão, para constatar o que estava sendo dito pelo alcaguete, chamou um praça, usando o já costumeiro termo pejorativo. E o praça veio e ao chegar, em posição de sentido disse: “pronto grandioso chefe”!
O capitão torceu o nariz e a partir de então não chamou mais ninguém de vagabundo.
Quando o colega que fez narrativa encerrou, várias pessoas riam, olhando para mim.
*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ









