O jornalismo paraense perdeu neste domingo, 31, uma de suas vozes mais respeitadas. Morreu Carlos Mendes, repórter de rara obstinação, cronista dos acontecimentos amazônicos e testemunha privilegiada de algumas das histórias mais marcantes do Pará nas últimas décadas. Ao longo de mais de meio século de atuação profissional, Carlos Mendes construiu uma trajetória marcada pelo rigor da apuração, pela independência editorial e pela capacidade de enxergar, nos fatos da Amazônia, narrativas de interesse nacional. Foi um dos jornalistas que melhor compreenderam a complexidade da região, traduzindo para o Brasil os dramas, os conflitos, os personagens e os mistérios que moldam a vida amazônica.
Sua carreira passou por importantes redações paraenses, incluindo os históricos “O Estado do Pará” e “Folha do Norte”, além de O Liberal e semanário “Bip-Nesws”, onde consolidou o nome como repórter de campo e analista atento da realidade política do Estado. Tornou-se correspondente na Amazônia do jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), função que exerceu por décadas, levando ao público nacional reportagens produzidas a partir de uma perspectiva profundamente enraizada na região.
Foram dele algumas coberturas mais completas do massacre de Eldorado dos Carajás, do assassinato da missionária Dorothy Stang, além de muitas matérias sobre o avanço do desmatamento e do garimpo ilegal na Amazônia. E, é claro. a cobertura histórica com uma série de reportagens sobre a Operação Prato, que investigou o fenômeno conhecido popularmente commo Chupa-Chupa, com depoimentos e documentos que se transformaram em livro e inspiraram documentários da Netflix e Globoplay.
Carlos Mendes pertencia a uma geração de jornalistas que fizeram da rua sua principal redação. Cultivava o contato direto com as fontes, valorizava o testemunho humano e acreditava que o jornalismo só cumpria sua missão quando conseguia revelar aquilo que permanecia invisível aos olhos do poder.
Com a chegada da era digital, mostrou mais uma vez capacidade de reinventar-se. Foi um dos pioneiros do jornalismo na internet no Pará ao criar um blog que, posteriormente, se transformaria no portal Ver-o-Fato. O espaço tornou-se referência pela cobertura política, pelas análises independentes e pela defesa permanente do jornalismo crítico. Em pouco tempo, o portal conquistou credibilidade e passou a integrar o cotidiano informativo de milhares de leitores, consolidando-se como uma das publicações mais respeitadas do Estado.
LUZES
Uma das contribuições mais singulares de Carlos Mendes está ligada a um dos episódios mais intrigantes da história amazônica: a Operação Prato. Ainda jovem repórter, acompanhou de perto os acontecimentos registrados entre 1977 e 1978 em municípios como Colares, Vigia, Marapanim, na Ilha de Mosqueiro e outras localidades do nordeste paraense, quando relatos sobre objetos luminosos, fenômenos inexplicáveis e ataques atribuídos ao chamado “chupa-chupa” provocaram medo e mobilizaram a Aeronáutica brasileira.
Décadas depois, transformou essa experiência em um valioso trabalho de memória e investigação. No livro “Luzes do Medo – Relato de um Repórter na Operação Prato”, reuniu documentos, depoimentos, observações e lembranças de quem viveu aqueles acontecimentos. A obra tornou-se uma das mais importantes referências sobre o tema, não apenas para estudiosos da ufologia, mas para pesquisadores interessados na relação entre imprensa, Estado, imaginário popular e os grandes mistérios amazônicos.
Seu legado, porém, ultrapassa as páginas de livros, jornais ou portais. Carlos Mendes ajudou a formar gerações de jornalistas, inspirou profissionais pela seriedade com que exercia o ofício e demonstrou que é possível praticar um jornalismo firme sem abrir mão da sensibilidade humana.
Hoje, ao se despedir de Carlos Mendes, o Pará perde um de seus grandes repórteres. A Amazônia perde um intérprete atento. O jornalismo brasileiro perde uma de suas testemunhas mais legítimas. E eu perco um querido amigo, uma referência profissional e me uno ao luto da família, que também me acolheu. Quando vai embora alguém que a gente ama e admira, sempre vai junto um pouco de nós e fica um bocado dessa pessoa com a gente.
São rastros discretos que se acendem nos momentos mais importantes e se transformam em caminhos seguros. Carlos Mendes deixa uma trilha inteira de histórias, reportagens e memórias que continuarão iluminando o entendimento sobre esta terra que ele tanto amou e ajudou a explicar.
Como escreveu Mario Quintana: “O segredo não é correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.”
Carlos Mendes cuidou do seu jardim com trabalho, coragem e paixão pelo jornalismo. As borboletas vieram. E ficarão para sempre.
REPERCUSSÃO
O empresário e ex-governador Carlos Santos, CIO do Grupo Marajoara de Comunicação, disse a trajetória do jornalista se mistura com a história recente do Estado do Pará e que o jornalismo, hoje, perde uma lacuna de coragem, independência, seriedade e compromisso firme com a verdade dos fatos. “Deus o acompanhe e acolha em sua glória”, falou o comunicador.
Dona Aline Santos, diretora-administrativa do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ destacou que, nos 150 anos deste jornal, ao menos 50 também tiveram a contribuição de Carlos Mendes que teve muitas de suas matérias aqui repercutidas. Acrescentou que se trata de um notável ser cujo jornalismo foi seu maior ideal de vida.
O velório começa a partir das 15h na capela da Max Domini, em frente ao Cemitério de Santa Izabel.
Por Paulo Silber e Roberto Barbosa, da Redação do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ. Imagem: Ivan Martins










