domingo, agosto 31, 2025
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Slow medicine discute a busca desenfreada por uma ‘saúde adicional’

Movimento também questiona o excesso de pré-doenças: muitos pacientes nunca evoluam até o ponto de se enquadrar no diagnóstico daquela enfermidade

Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro

O livro “Slow medicine – sem pressa para cuidar bem”, dos médicos Ana Coradazzi e André Islabão, é um ótimo motivo para voltar ao tema. Criada em 2011, em Turim, na Itália, a slow medicine, que pode ser traduzida como medicina sem pressa, valoriza a escuta, o diálogo e o compartilhamento de decisões. Quem assina o prefácio é seu criador, o médico italiano Marco Bobbio, que escreve:

“Nas últimas décadas, temos assistido a um aumento de profissionais de saúde e cidadãos insatisfeitos com essa medicina cara que, em nome da eficácia, negligencia as demandas dos pacientes, suas necessidades e expectativas, aplicando indiscriminadamente os mesmos protocolos a jovens e idosos, homens e mulheres, prescrevendo exames e medicamentos sem uma avaliação criteriosa do paciente”.

De leitura acessível, a obra se debruça sobre os pilares desse movimento, que conquistou adeptos em outros países europeus, como Holanda e França, nos Estados Unidos e México – além do Brasil. “É importante reconhecer que todos nós perderemos, natural e gradualmente, algumas funções ao longo de nosso envelhecimento, e que nem sempre há necessidade de instituir tratamentos, em especial quando estamos diante de alterações fisiológicas. O bom senso proposto pela slow medicine está em saber reconhecer quando uma mesma manifestação clínica é claramente patológica e quando faz parte do envelhecimento normal do ser humano”, afirmam os autores.

Gosto especialmente de três conceitos abordados no livro que servem de reflexão para todos nós:

  1. O conceito positivo da saúde: a slow medicine defende que a saúde depende de aspectos que vão além do corpo físico. Assim, alguns indivíduos podem se sentir saudáveis e bem-dispostos, apesar de limitações físicas e diagnósticos de enfermidades. No entanto, a medicina convencional se baseia no oposto, isto é, no conceito negativo de saúde: a pessoa só seria saudável se não apresentasse nenhum sinal de doença.
  2. O excesso de pré-doenças: há uma série de rótulos atribuídos a indivíduos saudáveis na tentativa de diagnosticar de forma precoce e antecipar o tratamento de doenças para evitar complicações. O que ocorre é que muitas condições das chamadas pré-doenças – como pré-diabetes ou pré-hipertensão – foram criadas artificialmente, com a redução progressiva dos limiares tradicionalmente usados. A glicemia de jejum, por exemplo, já foi considerada normal até 140 mg/dL, limite que foi reduzido para 120, 110 e agora está em 99 mg/dL. Muitas pessoas rotuladas como pré-doentes nunca evoluirão ao ponto de se enquadrar no diagnóstico da doença.
  3. Saúde em excesso: hoje, há uma procura desenfreada por uma “saúde adicional” por parte de quem já é saudável, o que criou um mercado bilionário associado à exploração dessa busca sem limites de aptidão física.

Para a slow medicine, conhecer a conjuntura de vida de alguém é também uma ferramenta indispensável. Experiências prévias com o adoecimento podem aumentar a capacidade de resiliência dos indivíduos, assim como vivências traumáticas costumam se manifestar no enfrentamento de problemas de saúde.

Outra prática valorizada pelo movimento é a desprescrição. Visa a revisar, de forma cuidadosa, todos os medicamentos, avaliando se há possíveis interações medicamentosas perigosas – e retirar, de forma gradual, remédios que não sejam essenciais. Coradazzi e Islabão enfatizam que a relação médico/paciente só tem a ganhar quando se torna uma parceria:

“Pessoas cuja autonomia é respeitada tendem a assumir o papel de protagonistas da própria saúde”, destacam.

Foto: Alterfines para Pixabay

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