quarta-feira, maio 29, 2024
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Uso de anabolizantes aumenta em quase três vezes o risco de morte

Há um ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu o uso de esteroides androgênicos e anabolizantes (EAA) com finalidade estética, de desempenho ou para ganho de massa muscular no Brasil. Considerado um problema de saúde pública, o uso indiscriminado dessas substâncias sintéticas derivadas da testosterona aumenta os riscos à saúde, principalmente à saúde cardiovascular.

Agora, uma carta científica publicada no Jama – uma das revistas médicas mais importantes do mundo – traz dados contundentes de um estudo observacional dinamarquês.

A Dinamarca tem um registro médico de todos os seus habitantes e, durante cerca de 11 anos, foram feitas inspeções esporádicas com testes antidoping em academias de ginástica do país. Ao todo, o estudo monitorou 1 189 homens que eram usuários de esteroides anabolizantes e 59 450 homens sem esse hábito (o grupo controle), com idade média de 27 anos.

Durante o acompanhamento, notou-se que a taxa de mortalidade entre os usuários de anabolizantes foi 2,81 vezes maior do que entre os não-usuários.

Quando foram analisadas as mortes não naturais, como acidentes, crimes violentos e suicídios, a diferença foi ainda mais acentuada, alcançando uma taxa de mortalidade 3,64 vezes maior entre os usuários de esteroides.

“Esses resultados levantam sérias preocupações sobre o risco de morrer associado ao uso de esteroides anabolizantes e destacam a necessidade urgente de conscientização sobre os seus efeitos”, alerta o endocrinologista Clayton Luiz Dornelles Macedo, que coordena o Núcleo de Endocrinologia do Exercício e do Esporte do Hospital Israelita Albert Einstein e o ambulatório de Endocrinologia do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

É importante destacar que essa pesquisa é observacional. Ou seja, não dá para descartar que variáveis não analisadas tenham influenciado no resultado, tampouco cravar que o anabolizante, em si, é responsável por esse aumento considerável na mortalidade.

Ainda assim, os especialistas afirmam que o estudo foi bem conduzido e se soma a outras diversas evidências já existentes que apontam riscos à saúde desses produtos.

DICA

Mais do que realizar campanhas de orientação sobre o risco do uso de anabolizantes, Macedo diz que é preciso acolher e orientar, por meio de um atendimento interdisciplinar e individualizado, o paciente que decide interromper o uso.

“Se ele suspender abruptamente o uso da substância, o organismo vai sentir como se fosse uma síndrome de abstinência. Ele se sente cansado, fraco, agitado, e isso o faz querer voltar a usar”, diz.

Outro problema da interrupção abrupta é que o corpo precisa se reorganizar para produzir de novo testosterona e isso leva tempo – em média, até 52 meses para que tudo se normalize.

“Quando o paciente para de usar a testosterona externa, o organismo fica confuso com a falta do hormônio. Isso reduz a potência, diminui a libido, deixa o paciente mais cansado. Se não for bem orientado, ele talvez queira voltar a usar. Existe um protocolo de retirada da droga e isso depende de cada caso”, frisa.

Macedo explica que é preciso dar alternativas ao indivíduo que utilizava esteroides e decidiu parar. “Quando suspende o uso, ele perde os ganhos (a hipertrofia muscular, por exemplo) porque ele vivia em um corpo emprestado, num estado metabólico falso. Precisamos de uma nutrição adequada e suplementação, se necessário, com aporte energético de carboidratos e proteínas para a produção de músculo”, afirma.

“Além disso, muitas vezes existe uma autoimagem corporal deturpada, por isso pode ser necessário o acompanhamento psiquiátrico e psicológico”, completa.

Na opinião de Macedo, um ano após a resolução do CFM proibir o uso de anabolizantes com fins estéticos e de performance, melhorou o nível de educação do potencial usuário. “A impressão que eu tenho é que muitas pessoas que pretendiam usar pensaram duas vezes e acabaram deixando de lado esse desejo. Mas no Brasil o uso de anabolizantes ainda é um problema”, arremata. Segundo ele, mesmo doses pequenas, se não receitadas por um médico para doenças específicas, podem gerar um efeito colateral grave.

Imagem: Divulgação

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