Por ROBERTO BARBOSA, especial para o Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ
Terça-feira passada, dia 6, Dia de Reis, marcou os 45 anos do naufrágio do barco-motor “Novo Amapá” que, transportando cerca de 600 pessoas e uma tonelada de carga, além de veículos, muito acima de sua capacidade, afundou deixando um saldo de 300 mortos e u m luto que, alguns dias depois, invadiria, também, a Redação do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ, então funcionando em seu palácio-sede na Rua Campos Sales, entre as ruas Conselheiro João Alfredo e 13 de Maio, no coração do centro comercial de Belém. O repórter Emanuel Squaires, que fora designado para cobrir a tragédia em Santana, no Amapá, morreu quando o avião monomotor em que viajava de volta com o noticiário colhido, caiu na selva amazônica. Morreram o jornalista e o piloto da Taxi Aéreo Kovacs. A aeronave caiu à tarde do sábado e foi encontrada somente na terça-feira seguinte.
A tragédia com o “Novo Amapá” foi a maior já registrada nos rios da Amazônia em todos os tempos e já foi alvo de muitas reportagens nacionais e internacionais e até de obras literárias como a assinada pelo jornalista Evandro Corrêa “Sobral Santos II e Novo Ampaá – 40 anos das tragédias fluviais que abalaram o Brasil”.
OS FATOS
Na tarde de 6 de janeiro de 1981, o barco-motor Novo Amapá deixou o Porto de Santana (AP) às 14h com destino ao distrito de Monte Dourado (PA), fazendo escala em Laranjal do Jari. Oficialmente, a embarcação estava registrada para transportar até cerca de 150 pessoas e meia tonelada de carga. Contudo, naquela viagem, estimativas de sobreviventes e registros posteriores indicam que mais de 600 pessoas estavam a bordo, junto com quase uma tonelada de mercadorias, além de veículos e cargas pesadas, bem acima da capacidade permitida.
Por volta das 20h/21h, no trecho próximo à foz do rio Cajari — afluente do Amazonas — o barco virou abruptamente e naufragou. Relatos indicam que o tombamento foi rápido e fatal: muitos passageiros estavam dormindo, presos sob mercadorias ou em camarotes, sem tempo de escapar. Estima-se que mais da metade das pessoas a bordo morreu, inclusive dentro do próprio barco, ou permaneceu no fundo do rio sem resgate imediato.
O naufrágio passou a ser noticiado apenas no dia seguinte, quando sobreviventes conseguiram chegar a áreas habitadas — informação que rapidamente ganhou espaço em jornais nacionais e na primeira página do New York Times poucos dias depois.

Causas: da Superlotação às Condições Irregulares
Até hoje não existe um consenso técnico completo sobre a causa exata do acidente, mas alguns fatores são amplamente apontados:
- Superlotação: o número de passageiros extrapolou em várias vezes a capacidade oficial da embarcação.
- Carga excessiva: a embarcação levava carga acima do limite permitido, com mercadorias pesadas distribuídas de forma irregular.
- Falta de fiscalização efetiva e precariedade de segurança: ausência de coletes salva-vidas suficientes, documentação irregular e falta de controle rigoroso da Capitania dos Portos foram fatores citados por historiadores.
- Hipóteses diversas sem consenso: relatos incluem desde colisão com bancos de areia até maneio inadequado, mas a superlotação permanece a explicação mais aceita por pesquisadores.
VÍTIMAS E SOCORRO
Não existem números oficiais precisos, pois muitas pessoas nunca foram oficialmente registradas como passageiras. Estimativas variam, mas a maioria das fontes afirma que:
- Vítimas fatais: mais de 300 pessoas morreram, com estimativas chegando a mais de 400.
- Sobreviventes: menos de 180 — alguns passaram horas à deriva antes do resgate.
- Sepultamentos: dezenas foram enterrados em covas coletivas no Cemitério Municipal de Santana; muitos corpos nunca foram recuperados.
A operação de resgate enfrentou dificuldades logísticas, já que a tragédia aconteceu em região isolada da calha do rio, e os primeiros registros chegaram apenas no dia seguinte.
REPERCUSSÃO E MEMÓRIA
Na época
O impacto na sociedade foi profundo. A tragédia gerou comoção nacional e internacional — chegando a jornais como The New York Times — e representou um choque especialmente para as comunidades ribeirinhas dependentes do transporte fluvial.
REAÇÕES OFICIAIS
Apesar da dimensão da tragédia, nenhuma investigação completa foi concluída e os processos de reparação prescreveram em 1994, sem condenações significativas.
MEMÓRIA
Com o passar das décadas, o fato virou parte da história social e cultural do Amapá, do Pará e da Região Amazônica. No Cemitério de Santana existe um monumento e sepulturas coletivas em homenagem às vítimas, usados como espaço de memória e reflexão.
Nos últimos anos, espetáculos teatrais e eventos culturais passaram a relembrar o episódio e a reforçar a importância da segurança na navegação fluvial.
Desdobramentos nas Décadas Seguinte
SEGURANÇA NA NAVEGAÇÃO
Embora a tragédia tenha alertado para a necessidade de fiscalização mais rígida, muitos especialistas e moradores de comunidades ribeirinhas apontam que:
- A regulamentação fluvial continuou fraca por anos, com outras ocorrências de naufrágios na Amazônia, algumas também fatais, caso do Barco Mercante Sobral Santos II que navega até hoje com outro nome e que causou dezenas de mortes no porto de Óbidos, no Estado do Pará.
- A impunidade em casos de desastres semelhantes permaneceu uma crítica recorrente, refletindo lacunas na aplicação das normas e na responsabilização de responsáveis.
IMPACTOS SOCIAIS
A tragédia deixou feridas profundas nas comunidades de Santana, Laranjal do Jari, Monte Dourado e arredores. Famílias perderam entes queridos sem respostas claras, e essas perdas aparecem regularmente em memórias orais, culturais e jornalísticas locais.
45 Anos Depois: Lições e Memória
Quatro décadas e meia após o desastre, o naufrágio do Novo Amapá segue presente na história coletiva do Amapá:
- Ano Estadual da Conscientização da Navegação: existe no estado um marco legal que institui o dia 6 de janeiro como um momento de reflexão sobre a segurança fluvial.
- Cultura e Memória: peças teatrais, reportagens e homenagens lembram o episódio como alerta sobre os riscos da navegação ribeirinha sem fiscalização adequada.
- Debate sobre Segurança: pesquisadores, historiadores e comunidades cobram continuamente políticas públicas que melhorem a fiscalização de embarcações, coletes salva-vidas, treinamento de tripulação e controle de passageiros nos rios da Amazônia.
CONCLUSÃO
O naufrágio do Novo Amapá permanece um dos episódios mais trágicos da navegação brasileira: símbolo de falhas de fiscalização, superlotação e desrespeito às normas de segurança. Apesar de décadas terem se passado, a memória das vítimas segue viva nas comunidades afetadas e no cotidiano dos rios amazônicos, onde o transporte fluvial continua sendo essencial, mas ainda desafiador em termos de segurança e regulação.
Imagens: Reprodução









