segunda-feira, julho 6, 2026
Desde 1876

Galvão Bueno: a voz que o tempo não aposenta

Há narradores que descrevem um jogo. Há outros que contam uma época. Ele fez algo ainda mais raro: durante meio século, transformou o esporte brasileiro em memória coletiva

Muito antes de ser um bordão, ele era apenas um rapaz de Curitiba tentando encontrar uma voz. Encontrou um país inteiro. E o Brasil nunca mais ouviu uma Copa do Mundo, uma corrida de Fórmula 1 ou uma Olimpíada da mesma maneira.

Galvão jamais foi um narrador neutro. Era um torcedor com microfone, um contador de histórias que preferia a emoção à distância protocolar. Foi amado por isso. Foi detestado pela mesma razão. Mas nunca passou despercebido.

Enquanto outros narravam lances, ele criava trilhas sonoras. “Haja coração!”, “Vai que é sua, Taffarel!”, “Olha o que ele fez…”, “É tetra! É tetra!”. As frases escaparam da televisão e entraram no vocabulário do país. Tornaram-se patrimônio afetivo antes mesmo de virarem memes.

Sua maior virtude sempre foi compreender que o esporte não termina no placar. Futebol, para Galvão, nunca foi apenas bola. Era drama, amizade, tragédia, política, superstição e destino. Talvez por isso tenha construído relações tão profundas com alguns dos maiores personagens da história esportiva brasileira.

Nenhuma foi mais simbólica do que a amizade com Ayrton Senna. Eles conversavam fora das pistas, telefonavam um para o outro depois das corridas, compartilhavam confidências. Quando Senna morreu em Ímola, em 1994, Galvão não perdeu apenas o maior piloto do país. Perdeu um amigo diante das câmeras. Naquele dia, a voz que costumava explodir em vitórias precisou aprender a narrar o silêncio.

Poucos meses depois veio o tetra, nos Estados Unidos. A explosão de alegria parecia também uma forma de o país reaprender a respirar. O grito de “É tetra!” tornou-se inseparável das imagens de Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel. A partir dali, Galvão deixou definitivamente de ser apenas quem narrava a história. Passou a fazer parte dela.

A relação com Ronaldo Fenômeno seguiu caminho parecido. Viu surgir o garoto de Bento Ribeiro, acompanhou o drama da convulsão na final de 1998, emocionou-se com a redenção no pentacampeonato de 2002 e esteve presente até na despedida do maior artilheiro das Copas. Havia entre os dois uma cumplicidade construída ao longo de décadas, coisa rara entre jornalista e personagem.

Mas Galvão também descobriu cedo que toda grande popularidade cobra seu preço. Foi acusado de falar demais, de torcer demais, de aparecer mais que o jogo. E com razão. Brigou com árbitros, cartolas, dirigentes e, às vezes, até com comentaristas na própria cabine.

Quando a internet transformou “Cala a boca, Galvão” num fenômeno mundial, muitos imaginaram que sua imagem sairia menor. Aconteceu o contrário. Ele deixou de ser apenas um narrador para virar personagem da cultura brasileira. O meme sobreviveu porque existia um protagonista conhecido por todos.

Ele nunca pediu desculpas por torcer pela Seleção. Ao contrário. Sempre sustentou que narrar o Brasil exigia envolvimento. Sua televisão nunca foi a da falsa neutralidade. Era a da emoção assumida.

Talvez por isso continue atual mesmo depois de tantas despedidas anunciadas. Aos 75 anos, de volta às transmissões, sua voz permanece inquieta. Na recente partida entre Brasil e Japão, pela Copa do Mundo, já no SBT, interrompeu a narrativa para cobrar do árbitro o encerramento da partida. Por alguns minutos, deixou o espetáculo em segundo plano. Era o velho Galvão, incapaz de assistir passivamente quando julgava que o jogo havia ultrapassado os limites do futebol.

Entre todas as polêmicas, bordões e exageros, talvez seja esse o traço que melhor explique sua permanência. Galvão nunca foi apenas um profissional da narração. Sempre reagiu como espectador privilegiado da história.

Enquanto o esporte mudava de velocidade, saía do rádio para a televisão, da televisão para a internet e da internet para as redes sociais, ele continuava ali, atravessando gerações.

Crianças aprenderam futebol ouvindo sua voz. Essas crianças viraram pais. Depois avós. Os ídolos envelheceram. Alguns morreram. Outros nasceram. E Galvão permaneceu como uma espécie de relógio afetivo do esporte brasileiro.

O futebol não é a pátria de chuteiras? Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, talvez acrescentasse que essa pátria também encontrou sua voz.

Uma voz que não narrou apenas esportes. Galvão narrou o tempo. E se fez memória. Viva.

Por Paulo Silber/Imagem: Reprodução

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