PESQUISA MOSTRA QUE EXCESSO DE DEFENSIVOS AUMENTA CUSTOS DE PRODUÇÃO, REDUZ RENTABILIDADE E AMPLIA RISCOS AMBIENTAIS E SANITÁRIOS
Durante décadas, o debate sobre agrotóxicos no Brasil ficou preso a uma polarização previsível: de um lado, produtividade; de outro, impactos ambientais e sanitários. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em dezembro de 2025, acrescenta uma terceira dimensão ao tema — e talvez a mais sensível ao produtor rural: a eficiência econômica dentro da porteira.
Segundo a pesquisa, o sobreuso de agrotóxicos — aplicação acima do nível economicamente eficiente — tornou-se um fenômeno disseminado, atingindo mais de 80% dos municípios brasileiros em 2017 e chegando a cerca de 90% nas regiões Sul e Centro-Oeste. A consequência é direta: aumento de custos sem retorno proporcional em produtividade e perda de margem em um cenário de insumos cada vez mais caros.
A CONTA QUE NÃO FECHA
Sob a lógica econômica apresentada no estudo, o nível ideal de aplicação ocorre quando a Receita Marginal Adicional (RMA) é igual a 1 — isto é, cada real investido em defensivos gera exatamente um real adicional em receita. Quando o indicador fica abaixo disso, o produtor passa a operar em prejuízo.
Os dados indicam que essa eficiência vem caindo ao longo do tempo. Entre 2001 e 2016, a receita gerada por unidade adicional de agrotóxico apresentou trajetória decrescente. Em municípios com forte produção de soja, por exemplo, gastos extras de R$ 10,00 em agrotóxicos resultaram em apenas R$ 3,20 em receita adicional — um prejuízo direto de R$ 6,80 por unidade de investimento excedente.
RESISTÊNCIA, SOLO E DECISÕES DE MANEJO
Entre os fatores que explicam a perda de eficiência está a crescente resistência de pragas e patógenos, consequência do uso intensivo e contínuo de determinados ingredientes ativos. Com o tempo, o agricultor precisa aplicar doses maiores ou aumentar a frequência das pulverizações, elevando custos sem ganhos equivalentes de produtividade.
O excesso de químicos também pode comprometer a microbiota do solo, reduzindo a fertilidade e o potencial produtivo no longo prazo. O estudo ainda aponta que sistemas produtivos associados a sementes geneticamente modificadas resistentes ao glifosato podem estimular aplicações excessivas quando não acompanhados por manejo técnico rigoroso.
CAMINHOS PARA REDUZIR O SOBREUSO
Para o pesquisador do Ipea José Feres, um dos pontos centrais para enfrentar o problema está no fortalecimento de políticas públicas e assistência técnica. “O Brasil poderia ter uma regulação mais restritiva para os agrotóxicos de maior toxicidade. Nos últimos quinze anos houve a aprovação de muitos produtos extremamente prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente”, afirma.
Feres destaca também o papel estratégico da extensão rural. “Os serviços de assistência técnica são fundamentais para promover o uso eficiente dos agrotóxicos. Agricultores com acompanhamento adequado tendem a utilizar esses insumos em menor intensidade. O país deveria investir mais no extensionismo rural”, avalia.
COMO O ESTUDO PODE INFLUENCIAR O SETOR
Na avaliação do pesquisador, o levantamento do Ipea traz ferramentas práticas para orientar ações no campo. “O estudo ajuda a identificar regiões críticas em termos de sobreuso, permitindo direcionar políticas públicas e iniciativas técnicas para onde o problema é mais sério”, explica.
Entre as sugestões apresentadas estão o fortalecimento da assistência técnica, a ampliação de programas de manejo integrado de pragas e o uso de tecnologias de agricultura de precisão para reduzir desperdícios e aumentar a eficiência das aplicações.
O PROBLEMA NÃO É O INSUMO — É O EXCESSO
Apesar dos alertas, Feres ressalta que a pesquisa não questiona a importância dos defensivos agrícolas para a produção nacional. “Não devemos demonizar o uso dos agrotóxicos. Pesticidas e herbicidas são importantes para a manutenção da produção agrícola brasileira. O problema está no uso excessivo”, afirma.
Segundo ele, a melhoria na eficiência do manejo pode gerar ganhos amplos. “Se utilizarmos os agrotóxicos de maneira mais eficiente, podemos obter benefícios socioambientais e econômicos ao mesmo tempo. Além de reduzir impactos sobre saúde humana e meio ambiente, é possível aumentar a produtividade das áreas agrícolas”, conclui.
UM “DUPLO GANHO” POSSÍVEL
A principal mensagem do estudo é que reduzir o sobreuso representa uma oportunidade estratégica para o agro brasileiro. A adoção de práticas mais inteligentes — baseadas em dados, monitoramento técnico e decisões agronômicas mais precisas — pode gerar o chamado “duplo ganho”: maior rentabilidade ao produtor e menor impacto ambiental.
Em um setor cada vez mais pressionado por custos elevados e exigências de sustentabilidade, a discussão deixa de ser ideológica e passa a ser gerencial. O desafio agora é transformar conhecimento técnico em decisão prática dentro da porteira — e mostrar que eficiência também é produtividade.
Por Sandra Jassa/Imagem: Divulgação








