Por Airton Faleiro
Havia uma esperança de elegermos um Congresso mais comprometido com o futuro do país e com a proteção do meio ambiente. Elegemos 124 deputados e deputadas de esquerda, que continuarão nessa trincheira, mas o cenário geral mostra que teremos um caminho difícil pela frente.
Sete em cada dez parlamentares eleitos têm “pouco ou muito pouco compromisso” com a agenda ambiental, segundo levantamento do Observatório do Clima. Na Câmara dos Deputados, são 345 dos 513 deputados. No Senado, 64 dos 81 senadores não se alinham a essa pauta.
Para quem olha a Amazônia de longe, isso pode parecer apenas mais uma estatística. Para quem vive aqui, não é.
Nós sabemos o que significa sentir o calor aumentar, ver os rios baixarem, enfrentar a fumaça das queimadas, a poeira, o avanço do desmatamento e a pressão sobre a terra e sobre os territórios. Por isso, quando falamos de meio ambiente, não estamos falando de uma pauta distante. Estamos falando da nossa vida, do nosso trabalho e do futuro da Amazônia.
A proteção ambiental está diretamente ligada à vida das pessoas. E precisamos, sim, de mais estradas, infraestrutura, desenvolvimento e oportunidades. Mas esse desenvolvimento precisa gerar renda e melhorar a vida do nosso povo sem destruir o patrimônio ambiental que sustenta a nossa própria existência. Para nós, desenvolvimento tem que ser com a floresta em pé.
Isso passa também pela proteção de quem vive e produz nesses territórios. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, extrativistas e agricultores e agricultoras familiares há gerações cuidam da Amazônia e precisam ter voz nas decisões sobre o presente e o futuro da região.
E existem caminhos para crescer sem destruir. A sociobioeconomia, a agricultura familiar, o extrativismo sustentável, a produção das comunidades tradicionais, o turismo de base comunitária e agroecológico, a ciência, a tecnologia e a valorização dos produtos da biodiversidade amazônica mostram que é possível gerar desenvolvimento mantendo a floresta em pé.
E são decisões como essas que passam pelo Congresso Nacional. Vimos durante o governo do presidente Lula, pautas importantes para a proteção ambiental e dos povos passarem. E o cenário que se desenha para a próxima legislatura exige ainda mais atenção.
Estamos falando da possibilidade de enfraquecimento do licenciamento ambiental, da ampliação da mineração predatória, da redução de áreas preservadas e da não demarcação de terras indígenas e quilombolas. Além de tentarem novamente “passar a boiada” sobre a Amazônia.
Mas há algo ainda mais grave: a disputa pelas riquezas da Amazônia.
Petróleo, minerais estratégicos, terras raras, água e biodiversidade despertam interesses dentro e fora do Brasil. E a extrema-direita vai entregar essas riquezas aos interesses estrangeiros, especialmente aos Estados Unidos.
É disso que falamos quando defendemos soberania: o Brasil precisa proteger o que é seu e garantir que nossas riquezas sirvam ao nosso povo, principalmente os atingidos e não aos interesses de outros países.
A Amazônia precisa ser protagonista
Como agricultor familiar e parlamentar, sei que quem vive na nossa região deseja desenvolvimento. Queremos estradas, universidades, saúde, energia, crédito, produção e oportunidades para nossa juventude.
Queremos também rios vivos, floresta preservada, territórios protegidos e condições para que nossos filhos, netos e as próximas gerações possam continuar vivendo nesta região.
O Brasil voltou a tratar a proteção ambiental, o combate ao desmatamento e a valorização da Amazônia como questões centrais para o desenvolvimento do país. O desafio agora é impedir retrocessos e avançar em políticas que conciliem geração de renda, justiça social e proteção ambiental.
Será difícil. Mas nós já enfrentamos uma vez o mal e sairemos vitoriosos!
*Autor é deputado federal reeleito pelo Pará





