segunda-feira, outubro 12, 2026
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A fé, quando está acima do ódio, nos ensina a estender as mãos

No Dia da Padroeira, em meio ao Círio, à eleição e ao Dia das Crianças, o Brasil é convidado a reencontrar o que ainda pode uni-lo: a esperança, o respeito e a humanidade

O calendário parece conspirar para nos lembrar de quem somos. O 12 de outubro é um dia assim. O Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, festeja suas crianças e, em meio à proximidade de mais uma decisão eleitoral, ainda nos perguntamos como pode um país de tanta fé conviver com tanto ódio.

A poucos dias do segundo turno, a polarização transformou adversários em inimigos e diferenças em trincheiras. Até a devoção popular entrou no campo de batalha. Ataques a imagens sacras, vandalismo contra símbolos religiosos e ameaças a estabelecimentos ligados à fé, registrados em diferentes cidades, levaram o Supremo Tribunal Federal a determinar que a Polícia Federal investigue os episódios. A intolerância pode até vestir a fantasia de cruzada, mas continua sendo intolerância.

Nossa Senhora Aparecida não pertence a um partido, a uma candidatura ou a uma corrente ideológica. Pertence à história afetiva de milhões de brasileiros. Sua imagem negra tornou-se símbolo de acolhimento para gente que conhece a dureza da vida e não abre mão da esperança. Transformá-la em arma eleitoral é diminuir aquilo que a torna tão grande.

Os números do IBGE ajudam a dimensionar essa presença. No Censo de 2022, 56,7% dos brasileiros com dez anos ou mais se declararam católicos, cerca de 100,2 milhões de pessoas. Outros 26,9%, aproximadamente 47,4 milhões, disseram ser evangélicos. O retrato revela mudanças importantes na religiosidade nacional, mas também confirma a dimensão da fé na vida brasileira. Um país tão diverso não precisa acreditar da mesma maneira para aprender a respeitar a crença alheia.

No Pará, outubro acrescenta outro capítulo a essa história. O Círio de Nazaré acaba de levar milhões de pessoas às ruas de Belém, unidas pela devoção à Virgem de Nazaré. Na corda, nas promessas, nas lágrimas e nos abraços, há uma lição que ultrapassa os limites da religião: a solidariedade pode aproximar desconhecidos, e a esperança não exige que todos pensem igual.

E há as crianças. Celebradas na mesma data, elas talvez sejam o argumento mais poderoso contra a intolerância. Que país estamos preparando para quem ainda aprende a falar, a brincar, a discordar e a conviver? Que exemplo oferecemos quando adultos trocam argumentos por insultos e diferenças por ameaças?

Guimarães Rosa escreveu, em “Grande Sertão: Veredas”, uma frase que atravessa tempos difíceis: “O que a vida quer da gente é coragem”. Coragem, hoje, não é gritar mais alto nem destruir o símbolo do outro. É defender as próprias convicções sem abrir mão do respeito. É reconhecer que nenhuma vitória eleitoral justifica a derrota da civilidade.

Neste 12 de outubro, que Aparecida inspire os brasileiros, que Nazaré continue a iluminar os paraenses e que nossas crianças recebam um país menos ressentido e mais generoso. A fé que merece ser celebrada não é a que ergue muros, mas a que ensina a estender a mão.

Por Paulo Silber/Imagem (Cidade 091)

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