Uma investigação conduzida pela Polícia Civil revelou detalhes da estrutura utilizada pelo Comando Vermelho para articular alianças interestaduais e administrar conflitos entre integrantes da facção criminosa. De acordo com os investigadores, o grupo mantém uma rede de “conselhos permanentes” espalhados por diferentes estados, responsáveis por manter contato direto com a cúpula instalada no Rio de Janeiro.
As informações surgiram a partir da quebra de sigilo telefônico de diversos líderes da organização. As interceptações foram analisadas por agentes da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro, que identificaram a atuação de um traficante preso exercendo um papel considerado estratégico na mediação de disputas e na formação de acordos entre facções.
Segundo a investigação, Arnaldo da Silva Dias, conhecido como Naldinho, atuava como uma espécie de articulador de conflitos regionais. À época das conversas interceptadas, ele estava custodiado no Presídio Estadual Gabriel Ferreira de Castilho (Bangu 3), no Rio de Janeiro.
Os investigadores apontam que Naldinho era responsável por alinhar pactos entre grupos criminosos e também por intermediar conflitos envolvendo integrantes da facção em outros estados. Em uma das mensagens interceptadas anteriormente pela Polícia Federal, ele teria determinado uma trégua temporária em roubos no Rio durante a realização da reunião do G20, ocorrida em 2024 na capital fluminense.
Conflito em presídio de Rondônia
Durante a apuração do inquérito, a Polícia Civil identificou diálogos em que Naldinho era acionado para resolver desentendimentos entre criminosos em outros estados. Em uma conversa registrada em fevereiro do ano passado, um interlocutor relata ao traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, que um integrante do Comando Vermelho havia sido agredido por um detento ligado ao Primeiro Comando da Capital dentro do Presídio Urso Branco, em Porto Velho, capital de Rondônia.
O episódio ocorreu em um período em que as duas facções buscavam estabelecer um entendimento para ampliar o controle sobre rotas de fronteira no país. Na mensagem encaminhada a Doca, o interlocutor relatava que integrantes do CV pretendiam reagir à agressão, mas aguardavam orientação da liderança.
Na resposta, Doca teria afirmado que seria necessário acionar Naldinho para solucionar a situação. Em outra troca de mensagens, ele compartilha um comunicado do chamado Conselho Permanente de Rondônia reforçando um pacto de não agressão com o PCC, mas alertando que qualquer descumprimento poderia gerar retaliações.
Comunicados e decisões centralizadas
As investigações também revelaram que a facção utiliza comunicados internos, chamados de “circulares”, para divulgar decisões e orientações entre os integrantes. Esses documentos seriam repassados em grupos monitorados pela liderança para manter a cúpula informada e permitir a intervenção em casos de conflito.
Em uma das mensagens analisadas, Naldinho afirma estar “resolvendo questões dos estados”, o que, segundo os investigadores, evidencia uma estrutura organizada e hierarquizada.
Para a Polícia Civil, o material indica a existência de um fluxo de decisões centralizado, capaz de mediar disputas e estabelecer diretrizes para diferentes regiões do país.
Os investigadores avaliam ainda que o grau de articulação interestadual aponta para um projeto de expansão da influência do Comando Vermelho em nível nacional. Além de Rondônia, foram identificadas conversas envolvendo conselhos ligados à facção em Mato Grosso, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte.
Posicionamento da Secretaria de Administração Penitenciária
Procurada, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro informou, por meio de nota, que não teve acesso aos autos da investigação e que não há confirmação técnica de que as mensagens citadas tenham sido produzidas ou transmitidas a partir do Presídio Gabriel Ferreira de Castilho.
A pasta também declarou que, durante o período em que permaneceu custodiado no sistema penitenciário do estado, Naldinho apresentou comportamento considerado indisciplinado, tendo sido submetido a seis períodos de isolamento na Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino (Bangu 1).
Fonte e imagem: Agência Ronabar com informações do Portal Extra.Globo







