Na 234ª edição, romeiros percorreram 3,6 quilômetros entre a Catedral Metropolitana e a Basílica Santuário; promessas, agradecimentos e demonstrações de fé marcaram a manhã deste domingo
Um universo de 2,3 milhões de pessoas participaram da 234ª edição do Círio de Nazaré, realizada na manhã do domingo, 11, em Belém. A estimativa da Diretoria da Festa de Nazaré confirma a dimensão da principal manifestação religiosa do Pará, que levou uma multidão às ruas da capital para homenagear Nossa Senhora de Nazaré, agradecer por graças alcançadas e renovar promessas.
Os devotos percorreram aproximadamente 3,6 quilômetros, entre a Catedral Metropolitana de Belém, na Cidade Velha, e a Basílica Santuário de Nazaré. O trajeto foi cumprido em mais de quatro horas, em uma caminhada marcada pela emoção, pela devoção e pelo esforço dos romeiros que acompanharam a berlinda com a imagem da padroeira dos paraenses.
A grande procissão deste domingo foi o ponto alto de uma programação que reúne 14 romarias oficiais durante a quadra nazarena. Na noite de sábado (10), a Trasladação, tradicionalmente considerada a segunda maior procissão da festividade, também levou uma multidão às ruas de Belém, com público estimado em 1,9 milhão de pessoas.

PROMESSAS E AGRADECIMENTOS
Por trás dos números grandiosos do Círio estão histórias pessoais de fé, superação e esperança. Entre os participantes, muitos caminham para agradecer por conquistas familiares, recuperação da saúde, oportunidades profissionais e realizações que atribuem à intercessão de Nossa Senhora de Nazaré.

Moradora de Salinópolis, no nordeste paraense, a assistente social Larissa Melo, de 34 anos, acompanhou a procissão com a filha Elena, de quatro anos. O marido, o eletricista Marcos Sarmento, participou do percurso na corda. A família viajou até Belém para agradecer pela vida da menina e pelas conquistas alcançadas ao longo dos últimos anos.

Larissa contou que sua devoção à Virgem de Nazaré se intensificou durante a gravidez e, principalmente, diante das complicações enfrentadas pela filha logo após o nascimento. Prematura, Elena precisou permanecer por 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), depois de nascer em uma condição que provocou grande apreensão na família.
A experiência fortaleceu ainda mais a fé da mãe, que considera a recuperação da filha uma graça especial. Desde então, a participação no Círio passou a integrar a tradição familiar. Todos os anos, Larissa acompanha a menina caminhando, enquanto o pai participa do cortejo na corda.
A história da família representa uma das muitas demonstrações de gratidão que se repetem durante a procissão, quando os devotos transformam experiências pessoais em testemunhos públicos de fé.

Aprovação no vestibular e recuperação da saúde
A estudante Adricia Almeida, de 18 anos, também participou do Círio para agradecer por duas conquistas importantes. Aluna do curso de Engenharia de Bioprocessos da Universidade Federal do Pará (UFPA), ela celebrou a aprovação no vestibular e a recuperação de um primo que sofreu um acidente neste ano.
Acompanhada da mãe, a professora Ângela Almeida, de 50 anos, Adricia destacou que a participação na procissão foi uma maneira de reconhecer as bênçãos recebidas e manifestar gratidão pela melhora do familiar.
Para Ângela, a caminhada teve um significado adicional: ver a filha assumir espontaneamente a tradição religiosa da família. Problemas de saúde haviam impedido a jovem de acompanhar a mãe em anos anteriores, mas, desta vez, foi ela quem manifestou o desejo de participar.
A professora relatou que também tinha promessas a cumprir, relacionadas à recuperação de familiares que enfrentaram problemas graves de saúde. A presença da filha tornou o momento ainda mais emocionante, ao demonstrar que a devoção a Nossa Senhora de Nazaré continua sendo transmitida entre gerações.

Casa própria vira motivo de agradecimento
A conquista da casa própria também esteve entre os motivos que levaram fiéis às ruas de Belém. Os professores Elísio Almeida e Idalrina Siqueira, juntos há oito anos, acompanharam a procissão carregando uma maquete da residência que conseguiram comprar em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém.
Depois de anos pagando aluguel, o casal fez uma promessa: se conseguisse realizar o sonho da casa própria, participaria do Círio levando uma representação do imóvel para agradecer pela conquista.
A residência foi adquirida cerca de um mês depois da procissão do ano passado. Neste domingo, os professores voltaram às ruas para cumprir a promessa e compartilhar, simbolicamente, a realização de um dos principais objetivos da família.
Histórias como essas ajudam a explicar por que o Círio ultrapassa os limites de uma grande manifestação religiosa. A procissão reúne experiências individuais e familiares que encontram na devoção à Virgem de Nazaré um espaço coletivo de agradecimento, esperança e renovação da fé.

Operação mobiliza mais de 5 mil agentes
A concentração de milhões de pessoas nas ruas de Belém exige uma ampla estrutura de organização, atendimento e segurança. Durante a quadra nazarena, o Governo do Pará executa a Operação Círio 2026, coordenada pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup).
De acordo com as informações divulgadas pelo governo estadual, mais de 5 mil agentes de segurança participam da operação, com apoio de quase 750 viaturas e motocicletas, além de drones empregados no monitoramento das áreas de maior concentração de público.
A estrutura busca ampliar a capacidade de prevenção, facilitar a resposta a ocorrências e acompanhar o deslocamento dos romeiros ao longo das procissões.

No Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), uma sala de situação monitora em tempo real o percurso da berlinda e a movimentação das equipes de segurança. O acompanhamento permite compartilhar informações entre os órgãos envolvidos e orientar a atuação operacional durante a grande romaria.
Também foi instalado um Centro Integrado de Comando e Controle Móvel na esquina da Travessa Quintino Bocaiúva com a Avenida Nazaré. O equipamento funciona como posto avançado para agilizar o atendimento e facilitar a coordenação das equipes em uma região estratégica do trajeto.
O secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, Ed-lin Anselmo, destacou a integração das forças de segurança e o emprego de recursos tecnológicos para acompanhar as procissões e prevenir ocorrências.
Segundo ele, o planejamento contempla todas as romarias da quadra nazarena, com atenção especial ao Círio de domingo, que concentra o maior público da programação.

Belém vive mais um capítulo de sua maior manifestação de fé
A 234ª edição do Círio reafirma a importância de Nossa Senhora de Nazaré na vida religiosa e cultural do Pará. A cada ano, a procissão transforma as ruas de Belém em um espaço de encontro entre moradores, visitantes e devotos de diferentes gerações.
A dimensão do evento pode ser medida pela estimativa de 2,3 milhões de participantes, mas também pelas histórias de quem enfrenta longas distâncias, cumpre promessas e retorna à capital para agradecer por acontecimentos que marcaram a própria vida.

Entre a corda, a berlinda e as milhares de pessoas que acompanham o percurso, o Círio mantém uma característica que atravessa gerações: a união entre fé, tradição familiar e sentimento de pertencimento à cultura paraense.
Para Belém, a grande procissão representa ainda um dos momentos mais expressivos de sua identidade coletiva, reunindo religiosidade, mobilização popular e uma organização que exige a atuação conjunta de diferentes instituições.

Por ROBERTO BARBOSA, edição: NAZARÉ SARMENTO/Imagens: Ray Nonato, Agência Pará de Notícias e Grupo Marajoara de Comunicação





