quinta-feira, fevereiro 5, 2026
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Literatura – Reflexões de uma relação

Chegou no meio da tarde à uma sorveteria de lugar espaçoso. Dezenas de sabores descritos no alto da parede seduziam os fregueses a demorar mais do que o normal para decidir o que pedir. Algumas mesas estavam ocupadas por casais de namorados, cônjuges, amigos, uma mulher solitária, um homem solitário. Num dos bancos da parte externa um jovem casal se olhava e trocava carícias. Uma das mesas era ocupada por uma meia dúzia de mulheres que conversavam animadamente. Depois chegou uma mãe com um casal de adolescentes que ao receberem seus respectivos sorvetes, ocuparam uma mesa deliciando-se com seus pedidos. Sentiu um certo incômodo e pensou em sair, mas percebeu que ninguém olhava para a mesa que ocupava, pois ali quem não estava degustando seu sorvete já havia feito isso e estava envolvido em conversas, não prendendo a atenção aos demais, deixando o tempo passar preguiçosamente, livre do calor daquela tarde equatorial que ardia lá fora.

Sem quase nenhum entusiasmo, se dirigiu à atendente, indicando em voz baixa, o sabor que queria. E um minuto depois passou a ocupar uma das mesas com uma taça de sorvete. Enquanto sorvia, sem muito entusiasmo, um dos sabores que mais gostava, pensou naquilo que no início foi entusiasmante, a alegre relação de um casal. Quinze minutos antes deixara a complementação matrimonial em um café aonde fora se encontrar com pessoas amigas do mesmo sexo e que não teria hora para chegar a casa, retornando de carona com alguém do grupo.

Não se tratava de nenhum assunto profissional, apenas uma reunião informal de pessoas que gostam de conversar entre si. Teve vontade de chorar, mas conteve-se, pois não queria despertar a curiosidade ou comiseração de alguém, coisa que não passava por sua cabeça. Passar ou ser alvo de percepções pessoais, como vítima, nem pensar!

E se perguntou o que tanto conversava o grupo que estava sendo integrado pelo até então amor de sua vida? Uma ideia de criança veio à sua cabeça. Queria ser uma mosca e voar para lá e ouvir o que falavam e saber o que realmente o alvo maior de seus pensamentos gostava agora tanto de ouvir e falar. O que realmente, após mais de uma década do enlace, sua alma gêmea se interessava em ouvir e falar com outras pessoas, trocando sua companhia e o convívio conjugal por aqueles encontros e reuniões dos quais não tinha dúvida que ocorriam, mas que aqui e ali, falavam de outras pessoas, com risadas e expressões maliciosas. Mas, era apenas curiosidade, pois tinha certeza que mesmo sabendo literalmente dos assuntos que eram abordados em tais encontros, se saíssem de sua boca não iriam fazer o mesmo efeito a interessar sua então maior escolha, com grande embevecimento como as demais companhias. Aliás, quase já não conversavam, somente o necessário.

Tinha saudade do tempo em que se conheceram, quando varavam a madrugada conversando alegremente, descobrindo as afinidades existentes, às vezes chegando a pronunciar em uníssono suas exclamações de aceitação, admiração ou desaprovação, quando assistiam sessões de cinema, teatro e concertos juntos. Descobriam-se diariamente juntos, gostando das mesmas coisas, dos mesmos poemas, das mesmas músicas, das mesmas peças teatrais, dos mesmos autores.

Mas ultimamente, em casa, quando iniciava uma conversa, logo depois se dava conta que estava falando só, com sua então metade ao telefone ou porque deslocara-se para outro cômodo da casa ou lia, ou mexia em outra coisa. Nos deslocamentos de carro, quando ia alguém mais, puxava a conversa com quem quer que fosse. E quando iam as crianças, fazia a elas perguntas que poderiam ter sido feitas em casa, com mais profundidade. Também o tempo era usado para reclamar do trânsito ou, o pior, às vezes falando assuntos banais ao celular durante todo o deslocamento, mesmo quando estava dirigindo o carro em comum. E fora assim quando se deslocavam naquele dia, terminando por se despedirem com um burocrático beijo no rosto. Sentiu vontade de pedir mais uns três sorvetes, mas como vivia brigando com a balança, se conteve, pegando o celular para fazer de conta que ligava para alguém, enquanto pensava em seu então amor já distante. Lembrou que quando ainda não tinham filhos, faziam longos passeios, só os dois, durante noites enluaradas, agarrados enquanto um deles dirigia, até chegarem a algum restaurante de estrada ou ao hotel onde ficariam. Sentavam e seus olhares eram unicamente entre si. Mas, com o passar do tempo, sua meia parte desinteressou-se pelas coisas de casa.

Continuavam saindo juntos, participavam de alguns eventos, viajavam, agora com os filhos, mas já não era a mesma coisa. E se não fosse pelas crianças o convívio seria monótono. Quando estava saindo da sorveteria, o casal de namorados ainda ocupava o mesma banco na calçada e se dissolviam em sorrisos e olhares entre si. Sentiu vontade de parar e dizer para que eles aproveitassem aquele momento o máximo que pudessem. Mas, não teria coragem de fazer aquilo. No mínimo o casal de namorados acharia uma babaquice. Riu para si e encaminhou-se ao carro estacionado em frente à sorveteria. Sairia dali e realizaria algumas tarefas para gastar o tempo até dar a hora de apanhar os filhos na escola de música e retornar com eles para casa à espera de quem ainda era cônjuge, para sentir sua presença. E sofrer em silêncio com a mudança que vinha se acentuando, sem imaginar até quando iria se estender aquela situação mesmo que tivesse que sorrir para esconder a tristeza e não deixar que fosse percebido, enquanto aguardava o provável desenlace.

06/08/2012

Por Roberto Pimentel

*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ

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