sábado, maio 16, 2026
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OPINIÃO – Marajó ainda vende paisagem, enquanto o mundo já vende identidade

Região amazônica corre risco de ficar para trás no novo modelo de turismo global baseado em cultura, pertencimento e experiência.

Por Idinor Ferreira

O turismo mundial mudou. O visitante de hoje já não procura apenas belas paisagens para fotografar. Ele busca identidade, experiências autênticas, conexão cultural e histórias reais. Essa é a nova lógica que começa a orientar os investimentos turísticos no Brasil e no mundo.

Recentemente, o Ministério do Turismo destacou que estados brasileiros estão fortalecendo suas marcas territoriais para impulsionar o turismo e atrair investimentos. A estratégia vai além da divulgação de praias, rios ou monumentos: envolve transformar cultura, tradição e identidade regional em valor econômico e social.

A Amazônia foi apresentada como exemplo de destino ligado à sustentabilidade, biodiversidade e cultura tradicional. Mas existe uma pergunta inevitável: o Marajó está preparado para essa nova fase do turismo?

A resposta, infelizmente, ainda é não.

O Marajó continua invisível para o próprio Pará

Enquanto outras regiões doo Brasil organizam festivais internacionais, rotas culturais, turismo esportivo e campanhas globais de posicionamento territorial, grande parte do Marajó ainda luta pelo básico: infraestrutura, logística, saneamento, internet de qualidade e políticas permanentes de incentivo ao turismo.

Existe um discurso frequente sobre o “potencial turístico do Marajó”, mas pouco se fala sobre planejamento profissional, construção de marca regional e valorização econômica da identidade marajoara.

O arquipélago possui uma das culturas mais autênticas do planeta:

* tradição ribeirinha;

* gastronomia única;

* Dança regional;

* festas populares;

* biodiversidade;

* esporte náutico;

* saberes ancestrais;

* cerâmica marajoara;

* modo de vida amazônico.

Mesmo assim, muitos municípios permanecem fora das grandes rotas turísticas nacionais.

A impressão é que o Marajó continua sendo vendido apenas como “paisagem exótica”, enquanto o mundo moderno quer consumir experiência cultural.

Turismo sem identidade gera dependência

O grande problema é que, durante décadas, a Amazônia foi apresentada ao Brasil e ao exterior quase exclusivamente como cenário natural. Isso criou um modelo limitado de turismo, baseado em contemplação, semo fortalecimento real das comunidades locais.

Sem identidade organizada, o território perde força econômica.

Hoje, os destinos mais valorizados do mundo trabalham conceitos claros:

* pertencimento;

* memória;

* cultura local;

* experiências comunitárias;

* autenticidade;

* sustentabilidade.

O turista moderno quer participar da história do lugar. Quer conhecer quem vive ali, como vive, o que come, como celebra e quais símbolos representam aquela comunidade.

E nesse aspecto, o Marajó possui uma vantagem gigantesca — talvez uma das maiores do Brasil.

Portel e o turismo da identidade amazônica

Portel é um exemplo claro de território que pode transformar identidade em desenvolvimento.

O município possui:

* tradição cultural forte;

* potencial hidrográfico;

* vocação para esportes náuticos;

* festividades populares;

* juventude esportiva;

* culinária amazônica;

* paisagens naturais preservadas.

Quando projetos ligados ao futebol de base, à canoagem olímpica, ao remo e às regatas começam a surgir, não se trata apenas de esporte. Trata-se da construção de uma narrativa territorial.

O esporte pode se tornar ferramenta turística.

Cidades brasileiras já utilizam maratonas, campeonatos regionais, circuitos náuticos e eventos culturais para movimentar hotéis, restaurantes, comércio e economia criativa. O Marajó ainda explora muito pouco essa possibilidade.

A crítica que precisa ser feita

É preciso reconhecer que ainda existe ausência de prioridade política para o turismo regional amazônico.

Muitos municípios trabalham eventos isolados, sem continuidade, sem calendário consolidado e sem integração regional. Em vários casos, o turismo ainda é tratado apenas como festividade temporária, e não como política econômica estratégica.

Além disso, há pouca profissionalização na promoção dos destinos marajoaras. Falta presença digital forte, produção audiovisual de qualidade, capacitação turística, estrutura para recepção de visitantes e planejamento integrado entre municípios.

Outro ponto crítico é que o Marajó ainda depende excessivamente de narrativas produzidas de fora da região. Pouco da identidade local é contado pelos próprios marajoaras.

Sem protagonismo regional, o território corre o risco de continuar sendo apenas objeto de contemplação externa, sem geração efetiva de riqueza para sua população.

Oportunidade histórica da COP30

em Belém, abriu-se, oportunidade histórica para o Marajó. O mundo voltado seus olhos para a Amazônia.

Mas a pergunta permanece:

o que o Marajó mostrou ao mundo?

Se continuarmos apostando apenas em paisagem, poderemos perder espaço para destinos mais organizados. Porém, se transformar sua identidade em estratégia de desenvolvimento, poderá se tornar referência internacional em turismo cultural amazônico.

O futuro do turismo não pertence apenas aos lugares mais bonitos.

Pertence aos lugares que conseguem contar sua própria história.

*Autor é Secretário de esporte, cultura, lazer e turismo de Portel no Marajó/Imagem: Ray Nonato

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