terça-feira, outubro 6, 2026
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Quando ter mais votos não basta na disputa por uma cadeira no Legislativo

Sistema proporcional explica por que candidatos com votação maior podem ficar fora, enquanto outros, com menos votos, conquistaram uma cadeira na Câmara ou na Alepa.

Terminada a apuração, uma cena costuma provocar estranhamento no eleitor: um candidato recebe mais votos do que outro e, ainda assim, fica fora. Não há erro na urna, nem na totalização. É o efeito mais visível do sistema proporcional, usado nas eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador.

A diferença para uma eleição majoritária, como a de governador ou senador, é fundamental. No sistema majoritário, ganha quem obtém mais votos. No proporcional, primeiro se calcula quantas cadeiras cabem a cada partido ou federação. Só depois, dentro de cada legenda que conquistou vagas, entram os candidatos mais votados, respeitado o mínimo individual de 10% do quociente eleitoral.

É aí que aparece o paradoxo. Na eleição para a Câmara dos Deputados no Pará, o caso de Keniston Braga (MDB) é emblemático. O ex-deputado recebeu 76.344 votos, mas não conseguiu uma das 17 cadeiras. Ficou à frente, por exemplo, de Raimundo Santos (PSD), eleito com 65.059 votos, e de Bob Fllay (Podemos), que conquistou a última vaga com 63.285. Keniston também superou Lena Pinto, que teve 75.912 votos e ficou fora.

Como isso é possível? Porque os votos de Keniston ajudaram o MDB a conquistar cadeiras, mas a distribuição interna da legenda e das demais vagas não transforma automaticamente sua votação individual em mandato. A cadeira pertence primeiro ao partido. Depois, é preenchida pelo candidato que se enquadra nas regras de distribuição.

Na Alepa, o fenômeno aparece de forma ainda mais didática. Rui Begot (Podemos) foi eleito com apenas 32.467 votos, a menor votação entre os 41 deputados estaduais escolhidos. Enquanto isso, Elcione Barbalho (MDB) recebeu 44.738 votos e ficou como suplente. Ou seja: Elcione teve mais de 12 mil votos a mais e, mesmo assim, não conquistou uma cadeira.

O contraste também pode ser observado no meio da tabela. Carlos Vinicios (MDB) foi reeleito com 53.090 votos, Miro Sanova com 53.040, Eugênio Gadelha com 52.726, Coronel Neil com 51.832 e Fábio Figueiras com 50.531. Todos eleitos.

O caso de Rui Begot ajuda a desmontar uma ideia comum: a de que os 41 mais votados do Pará seriam, necessariamente, os 41 deputados eleitos. Não são. A lista final depende de uma sequência de cálculos que começa no quociente eleitoral, passa pelo quociente partidário e termina na distribuição das chamadas sobras.

Em resumo, o eleitor escolhe um candidato, mas também (mesmo que muitas vezes não perceba) fortalece um partido. E é justamente essa segunda parte do voto que define quantas cadeiras cada legenda terá. Pode parecer injusto quando se olha apenas para a votação individual. Mas é exatamente essa a lógica do sistema proporcional: não vence simplesmente quem tem mais votos. Vencem os partidos que conseguem transformar votos em cadeiras. E os candidatos que ocupam essas cadeiras dentro de cada legenda.

Por Paulo Silber/Imagem: Ozéias Santos/AID/Alepa

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