– Me ponha no xadrez seu delegado! – implorou aquele folião bêbado, mas o suficiente para saber o que dizia.
Fazia pouco tempo que aquele homem chegara à delegacia e o delegado ficou espantado! Mas, não o bastante. Já estava acostumado com manifestações absurdas da vida. E ali, quem sabe, estava acontecendo mais um estranho caso no âmbito policial.
É que não havia nenhum motivo, ao menos plausível, para atender aquele pedido, pois até então, não existia nenhuma causa legal. Não constava ter cometido alguma infração penal ou se havia ordem judicial para encarcerá-lo.
A atividade policial tem ou teve suas peculiaridades. Uma delas, a profusão de acontecimentos surpreendentes, muitos servindo de lições de vida, isso ocorrendo mais nos plantões de fins de semana e feriados.
São nesses plantões policiais que ocorrem as mais inusitadas situações.
E é por isso que eu dizia aos novos policiais e aos alunos do curso de formação, quando fui professor na Academia de Polícia, que não fugissem dos plantões para se limitar a trabalhar no expediente, pois é naqueles que se forja a personalidade do profissional de polícia, obtendo maior experiência, o chamado conhecimento empírico, vencendo e aprendendo a vencer desafios, a transpor obstáculos nunca sequer imaginados.
E quem não tem ou não teve a oportunidade de gramar, por um até curto período como plantonista, não poderá saber o que é realmente a atividade policial e para a qual se propõe.
E é assim que o policial se transforma em confidente, analista, conselheiro, orientador, passando a absorver, de passagem, uma série de qualidades e atribuições que não lhes são conferidas por delegação pelo Estado, mas porque se vê obrigado investir-se em tais atribuições, mesmo passageiras, porque uma delegacia é um dos últimos lugares que se procura.
Policial raramente recebe visita na delegacia. Quando aparece um amigo não é para trazer convite de casamento, colação, aniversário ou outro evento festivo, mas é para pedir sua atuação ou obter uma orientação.
Mas, voltemos ao nosso herói. Herói? Bem, é o protagonista deste “causo” de Polícia.
Estávamos já na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas daquele carnaval de 1992.
O plantão da Delegacia de Crimes Contra a Pessoa, que funcionava na Avenida Júlio César, defronte ao conjunto Marex, até então tivera suas ocorrências formais e naquela hora estava relativamente calmo o ambiente.
Os três investigadores daquele plantão tinham saído para uma rápida ronda de rotina nos arredores, área de conjuntos residenciais abertos.
Assim, estava ali apenas eu e a escrivã que datilografava um relatório.
De repente entra alguém, aparentemente embriagado e estafado, procurando pelo delegado. E, ao me ver, sem rodeios, foi diretamente ao assunto, dizendo que queria passar o resto de noite ali. Quer dizer, queria dormir sobre algum banco ou alguma cadeira ali na permanência, a sala de espera.
Quanto menos pessoas estranhas em uma delegacia, melhor, pois, do contrário, podem atrapalhar, gerar problemas. E podem até vir serem atingidas pessoalmente, de forma gratuita, numa situação agressiva de agitados infratores levados para ali ou de reação policial na respectiva contenção.
Como eu disse que ele não poderia usar para dormir os bancos ali existentes na sala de recepção, meu interlocutor então fez o pedido constante no início deste texto, ser colocado no xadrez, onde dormiria.
Disse a ele que não poderia atendê-lo naquele pedido. Mas, ele insistiu. Falei que o xadrez era para infratores, presos em flagrante delito ou preventivamente por ordem judicial, para depois serem destinados, se não fossem liberados judicialmente, às unidades do Sistema Penal.
Foi então que ele, para atingir seu passageiro objetivo, disse que iria logo cometer ali um crime.
E continuando, perguntou se danificasse algum objeto naquela delegacia ou me agredisse seria preso?
Fiquei olhando pra ele e perguntei então onde ele morava, tendo ele informado seu endereço, que ficava em um bairro ali próximo, mas que estava sem dinheiro para pegar um taxi com destino a sua casa.
Naquele ano ainda não fora implantada a telefonia celular em nosso Estado, bem como, havia pouquíssimos telefones fixos residenciais. E aquele indivíduo disse que em sua casa não havia telefone para ele se comunicar com familiares.
Pensei rápido e achei uma solução para aquele eventual problema, tendo dito ao folião bêbado para aguardar sentado em um dos bancos.
E tão logo sentou depois deitou, ocupando um dos bancos. E segundos depois já roncava.
Fui até o aparelho de rádio e fiz contato com os policias que estavam na viatura e logo chegaram ali, tendo eu ordenado que levassem aquele sujeito até o endereço que ele fornecera.
Os policias perguntaram o motivo e eu disse que diria depois, quando retornassem, pois eu queria ganhar tempo e me livrar daquele imbróglio, pois, já haviam chegado outas pessoas para registro de ocorrência de agressão, situação que levaria a me ocupar no atendimento.
E logo mais, ao retorno, os investigadores informaram que deixaram o folião em sua casa, sendo recebidos pela mãe deste.
Então comentei o caso, como tudo começara, e eles ficaram me olhando calados, quem sabe intimamente não entendendo minha decisão. E eu, sem que fossem pedidas explicações, me manifestei.
Quem sabe outro colega em meu lugar o teria colocado no xadrez. Mas, fui cauteloso, pois, a situação seria complicada para mim, se ao colocá-lo no xadrez, viesse ocorrer algum caso grave, como uma morte súbita ou agressão por presos. Como então explicar sua permanência ali?
Poderia ter deixado ele fazer o que sugeriu, para ser preso, danificar algum objeto ali, assim configurando crime de dano ao patrimônio público, ou de desacato e lesão corporal majorada se me agredisse. Mas, se assim concordasse, teria eu uma participação concorrente.
Então, fui prudente, prevalecendo em mim, em minha concepção, a ética, a fraternidade, o equilíbrio emocional, optando agir daquela forma, mesmo que houvesse discordância na concepção de outros, restando a decisão de mandar levá-lo a sua casa, como ocorreu, evitando, sabe DEUS, uma situação prejudicial e pesarosa para ele e para mim.
E assim, tudo foi resolvido.
No dia seguinte, em consulta ao sistema, pois anotara seu nome, dados de identificação, tais como, data de nascimento, filiação e outros, foi constatado que aquele que queria ser preso talvez nunca fora, pois ele não tinha antecedentes criminais.
Essa foi uma das situações incomuns da atividade policial.
Por Roberto Pimentel*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ









