Zélia Amador, a mulher que fez da coragem um ofício e nunca abaixou a cabeça. Artista, professora e militate, Zélia atravessou a censura, ajudou a transformar a universidade e se tornou uma das vozes fundamentais da luta antrirracista no Brasil
Uma vez, na década de 1980, com resquícios da ditadura militar ainda pingando, Zélia Amador de Deus resolveu fazer uma coisa que, no Brasil, quase sempre dava problema: colocou o corpo pra falar em alto e bom tom. Era teatro. Theastai Theatron. O Grupo Cena Aberta, sob a direção de Zélia, levou ao palco corpos nus, referências bíblicas, ritual, provocação. A censura, que naquela altura ainda rondava Belém com seus olhos de poucos amigos, não gostou. Proibiu.
Zélia e seus companheiros, porém, encontraram uma maneira de continuar dizendo aquilo que queriam dizer. Se o palco do teatro experimental foi absurdamente interditado para o grupo, havia outros lugares. Na Universidade Federal do Pará, o espetáculo encontrou abrigo. E os atores entraram em cena nus, todos eles, diante de quem quisesse ver.
Talvez seja uma boa maneira de começar a falar de Zélia Amador de Deus no dia em que ela, infelizmente, nos deixou. Lembrando que ela nunca teve vocação para baixar a cabeça.
O curioso é que Zélia não parecia feita para a guerra. Não cultivava o tipo de bravura que precisa de plateia. Sua força vinha de outro lugar. Havia nela uma espécie de firmeza serena, uma inteligência que não precisava levantar a voz para ocupar a sala inteira.
Durante a vida, Zélia Amador de Deus fez o possível para contrariar o sobrenome. Não foi amadora em coisa alguma. Talvez tenha sido, isso sim, uma profissional incansável de uma ideia que parecia simples, mas nunca foi: ninguém deveria precisar pedir licença para existir com dignidade.
O “de Deus” também lhe serviu, de certa maneira, como provocação involuntária. Porque Zélia passou boa parte da vida lidando com coisas bastante terrenas: racismo, pobreza, política, preconceito, poder. Coisas que não se resolvem no céu, mas nas ruas, nas salas de aula, nos palcos e nas instituições.
Nascida no Marajó, criada em Belém, filha de uma mulher que foi empregada doméstica, Zélia atravessou a vida pela porta que a educação lhe abriu. Entrou na universidade e, em vez de simplesmente se acomodar na cadeira conquistada, começou a mexer nas cadeiras dos outros.
Foi professora, pesquisadora, artista, militante, dirigente universitária. Ajudou a fundar o Cedenpa e o Grupo de Estudos Afro-Amazônicos. Participou da construção do movimento que transformaria a discussão sobre racismo no Brasil em política pública. Esteve em Durban, em 2001, quando o mundo discutiu o racismo e o Brasil começou a ser cobrado, com mais força, por aquilo que preferia muitas vezes não enxergar.
As cotas universitárias, hoje tão presentes na paisagem brasileira, tiveram muita gente na construção. Zélia estava entre essas pessoas. E talvez uma das melhores maneiras de medir sua importância seja imaginar o país antes delas, e olhar agora para dentro das universidades.
Mas há algo que as biografias oficiais dificilmente conseguem registrar. Zélia tinha humor. Tinha elegância. Tinha aquele jeito de quem já viu muita coisa absurda e, por isso mesmo, não precisava se impressionar com qualquer bobagem. Talvez por isso sua presença fosse tão forte sem ser pesada.
Nesta terça-feira, aos 74 anos, ela partiu. Poucas semanas antes, havia estado na universidade para uma homenagem que parece saída de uma dessas histórias que só fazem sentido depois. Plantaram um baobá em sua honra. Uma árvore africana, de memória longa, raízes profundas e paciência diante do tempo. Zélia estava lá.
É difícil não perceber a ironia bonita da cena. Plantaram uma árvore para alguém que passou a vida plantando inteligência, fazendo gente crescer e amadurecer. O baobá ainda é pequeno. Zélia já não está aqui para vê-lo evoluir. Há homenagens que não precisam de uma pessoa para testemunhá-las. Precisam apenas de tempo.
O tempo fará o que sabe fazer: aumentará o tronco, abrirá os galhos, dará sombra. E, um dia, alguém passará por aquela árvore sem saber exatamente por que ela está ali. Talvez pergunte. É assim que uma vida importante continua: não como estátua, mas como pergunta.
QUEM FOI ZÉLIA AMADOR DE DEUS?
A resposta não cabe numa placa. Está nas pessoas que chegaram depois dela. Está numa universidade um pouco diferente daquela que ela encontrou. Está no direito de tantos estudantes negros ocuparem lugares que antes lhes eram negados. Está também naquele palco, onde um grupo de atores nus descobriu que havia coisas que a censura podia proibir, mas não conseguia calar.
Zélia morreu. A obra, não. E o baobá ficou.

Por Paulo Silber com informações do Cidade 091/Imagem: Bruno Cecim





