terça-feira, outubro 6, 2026
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Belém deu nome à luta contra a violência de gênero, mas milhares de mulheres ainda vivem um cerco que não chega à delegacia

Trinta e dois anos depois da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. realizada na capital paraense, o silêncio continua sendo uma das faces mais difíceis de medir desta insistente violência contra a mulher

A violência contra a mulher tem um problema que os números não conseguem esconder, nem revelar por inteiro. Talvez porque boa parte dela nunca vire número. A atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, do Senado, estima que 29 milhões de brasileiras tenham sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Destas, 93,6% não procuraram a polícia ou canais de denúncia. Quando as mulheres são questionadas sobre situações concretas, em vez de apenas perguntadas se sofreram “violência”, a proporção sobe de 4% para 33%. Ao menos 87% das vítimas, segundo o levantamento, permanecem fora dos registros oficiais.

É espantoso. E ajuda a entender por que a violência registrada pode ser apenas a parte mais visível de um problema muito maior. Belém oferece uma ironia difícil de ignorar. Foi na capital paraense, em 9 de junho de 1994, que a Organização dos Estados Americanos aprovou a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. O tratado, conhecido como Convenção de Belém do Pará, reconheceu a violência física, sexual e psicológica como violação dos direitos humanos e estabeleceu o direito de toda mulher a uma vida livre de violência.

Trinta e dois anos depois, a cidade que emprestou o nome ao principal tratado interamericano sobre o tema continua convivendo com a violência que ele pretendia combater. Em 2025, cinco mulheres foram vítimas de feminicídio em Belém, segundo dados do Ministério da Justiça divulgados neste ano. No Pará, foram 63 mortes, contra 52 em 2024, um aumento de 21%.

Antes da morte, porém, costuma existir uma história. Ela pode começar com uma ameaça, passar pelo controle do celular, pelo isolamento, pela dependência financeira, pela violência psicológica e chegar à agressão física. Nem sempre deixa hematoma. Quase sempre deixa alguma forma de medo.

Os estudos acadêmicos ajudam a enxergar esse território invisível. Pesquisa da UFPA sobre mulheres acolhidas na Casa Abrigo Emanuelle Rendeiro Diniz, entre 2008 e 2017, identificou, entre as 507 mulheres analisadas, predominância de jovens e alta incidência de violência física e agressões recorrentes. O trabalho mostra também a importância da estrutura de acolhimento para mulheres que conseguiram romper, ainda que temporariamente, o ciclo de violência.

A rede pública revela outra parte da história. Na Região Metropolitana de Belém, as unidades ParáPaz registraram mais de 1.800 acolhimentos em 2025, sendo 771 na capital. São mulheres que chegaram a algum serviço. Mas quantas ficaram pelo caminho?

O silêncio não significa ausência de violência. Pode significar medo, vergonha, dependência econômica, ameaça, isolamento, desconhecimento ou simplesmente a percepção de que procurar ajuda não mudará nada. Por isso, em junho deste ano, Prefeitura e governo do Estado realizaram pela primeira vez, em Belém, um encontro para integrar a rede de enfrentamento à violência contra a mulher. A proposta é aproximar saúde, assistência, Justiça, segurança e acolhimento.

É uma necessidade que os números ajudam a explicar: denunciar não é apenas decidir apertar um botão ou atravessar a porta de uma delegacia. Para muitas mulheres, significa desafiar alguém que mora na mesma casa, controla o dinheiro, conhece sua rotina, ameaça os filhos ou já conseguiu convencê-la de que ninguém acreditará nela.

A Convenção de Belém do Pará estabeleceu, há 32 anos, que os Estados devem prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher. A tarefa continua atual. Talvez a maior contradição de Belém seja esta: a cidade deu seu nome a um compromisso internacional para que mulheres pudessem viver livres da violência. Mas, dentro de muitas casas da cidade, esse direito ainda não chegou. E existe uma diferença brutal entre uma convenção assinada e uma mulher que, finalmente, consegue fechar a porta de casa sem medo.

O silêncio também é um lugar onde a violência mora. E talvez seja o local mais difícil de encontrá-la.

Por Paulo Silber/Imagem (Cidade 091)

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