Muito antes de o açaí se transformar em um dos produtos mais conhecidos da Amazônia, Belém já convivia com uma paisagem marcada por mulheres carregando gamelas, vasilhas e outros recipientes usados na preparação e venda da bebida.
Elas estavam nas ruas, nas quitandas e nos pequenos pontos de comercialização. Eram negras, indígenas, mestiças, escravizadas, libertas e mulheres pobres livres. Em comum, tinham um ofício que ajudou a alimentar a cidade e a criar uma tradição que atravessou gerações.
A história das chamadas amassadeiras de açaí está diretamente ligada à formação da cultura alimentar de Belém.
UMA CIDADE ALIMENTADA PELAS RUAS
No século XIX, a venda de alimentos nas ruas fazia parte do cotidiano da capital da então Província do Grão-Pará.
As quitandeiras ocupavam espaços públicos e privados comercializando produtos que faziam parte da alimentação popular. Estudos históricos mostram que essas mulheres tinham papel significativo na circulação de alimentos e na geração de renda.
O açaí fazia parte desse universo.
Uma pesquisa da UFPA recupera relatos de viajantes estrangeiros que observaram mulheres negras e indígenas despolpando e vendendo açaí em bancas nas ruas de Belém.
O registro é especialmente importante porque demonstra que o consumo urbano do açaí não é uma novidade. Ele já fazia parte da rotina da população há mais de um século.
O TRABALHO INVISÍVEL
A figura contemporânea do “batedor de açaí” muitas vezes está associada ao homem que atende atrás do balcão.
Historicamente, porém, o trabalho feminino foi decisivo.
As mulheres dominavam o preparo manual e transmitiam a técnica dentro das famílias. Uma dissertação disponível no repositório da UFPA registra relatos segundo os quais mães ensinavam às filhas como amassar o fruto.
Era uma atividade que inicialmente podia estar relacionada ao próprio consumo familiar. Com o crescimento da vida urbana, o conhecimento passou também a ser utilizado como fonte de renda.
A cozinha doméstica, portanto, também funcionava como espaço de formação profissional.
O AÇAÍ DOS POBRES
Durante boa parte de sua história urbana, o açaí esteve associado principalmente às camadas populares.
A pesquisa histórica sobre alimentação em Belém mostra que o fruto ocupava posição importante na dieta dos segmentos mais pobres da população.
Isso ajuda a entender uma transformação curiosa.
O alimento que durante muito tempo foi associado à pobreza amazônica passou, nas últimas décadas, por uma extraordinária valorização comercial.
Hoje, o açaí está presente em mercados nacionais e internacionais.
Uma economia que começou muito antes da indústria
A pesquisa “A economia do açaí em Belém-PA”, publicada pela UFPA, sustenta que a atual economia do fruto é resultado de uma longa incorporação urbana de conhecimentos, práticas e hábitos alimentares amazônicos.
Ou seja: a industrialização não criou a cultura do açaí.
Ela encontrou uma cultura já consolidada.
E, nessa história, as mulheres que amassavam e vendiam o fruto foram fundamentais.
A FORÇA DE UMA TRADIÇÃO
Em 2026, o açaí ganhou mais um reconhecimento histórico: a legislação federal passou a designá-lo como fruta nacional.
Mas nenhum título institucional consegue contar sozinho essa trajetória.
Para compreender por que o açaí chegou tão longe, é necessário voltar às ruas antigas de Belém e lembrar das mulheres que, muito antes das modernas máquinas de processamento, transformavam pequenos frutos roxos em alimento, trabalho e sobrevivência.
A história do açaí também é a história delas.

Por NAZARÉ SARMENTO/Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagens: Reprodução





