terça-feira, outubro 6, 2026
Desde 1876

Registros históricos revelam como o trabalho feminino sustentou parte do comércio e da alimentação popular da capital paraense

Muito antes de o açaí se transformar em um dos produtos mais conhecidos da Amazônia, Belém já convivia com uma paisagem marcada por mulheres carregando gamelas, vasilhas e outros recipientes usados na preparação e venda da bebida.

Elas estavam nas ruas, nas quitandas e nos pequenos pontos de comercialização. Eram negras, indígenas, mestiças, escravizadas, libertas e mulheres pobres livres. Em comum, tinham um ofício que ajudou a alimentar a cidade e a criar uma tradição que atravessou gerações.

A história das chamadas amassadeiras de açaí está diretamente ligada à formação da cultura alimentar de Belém.

UMA CIDADE ALIMENTADA PELAS RUAS

No século XIX, a venda de alimentos nas ruas fazia parte do cotidiano da capital da então Província do Grão-Pará.

As quitandeiras ocupavam espaços públicos e privados comercializando produtos que faziam parte da alimentação popular. Estudos históricos mostram que essas mulheres tinham papel significativo na circulação de alimentos e na geração de renda.

O açaí fazia parte desse universo.

Uma pesquisa da UFPA recupera relatos de viajantes estrangeiros que observaram mulheres negras e indígenas despolpando e vendendo açaí em bancas nas ruas de Belém.

O registro é especialmente importante porque demonstra que o consumo urbano do açaí não é uma novidade. Ele já fazia parte da rotina da população há mais de um século.

O TRABALHO INVISÍVEL

A figura contemporânea do “batedor de açaí” muitas vezes está associada ao homem que atende atrás do balcão.

Historicamente, porém, o trabalho feminino foi decisivo.

As mulheres dominavam o preparo manual e transmitiam a técnica dentro das famílias. Uma dissertação disponível no repositório da UFPA registra relatos segundo os quais mães ensinavam às filhas como amassar o fruto.

Era uma atividade que inicialmente podia estar relacionada ao próprio consumo familiar. Com o crescimento da vida urbana, o conhecimento passou também a ser utilizado como fonte de renda.

A cozinha doméstica, portanto, também funcionava como espaço de formação profissional.

O AÇAÍ DOS POBRES

Durante boa parte de sua história urbana, o açaí esteve associado principalmente às camadas populares.

A pesquisa histórica sobre alimentação em Belém mostra que o fruto ocupava posição importante na dieta dos segmentos mais pobres da população.

Isso ajuda a entender uma transformação curiosa.

O alimento que durante muito tempo foi associado à pobreza amazônica passou, nas últimas décadas, por uma extraordinária valorização comercial.

Hoje, o açaí está presente em mercados nacionais e internacionais.

Uma economia que começou muito antes da indústria

A pesquisa “A economia do açaí em Belém-PA”, publicada pela UFPA, sustenta que a atual economia do fruto é resultado de uma longa incorporação urbana de conhecimentos, práticas e hábitos alimentares amazônicos.

Ou seja: a industrialização não criou a cultura do açaí.

Ela encontrou uma cultura já consolidada.

E, nessa história, as mulheres que amassavam e vendiam o fruto foram fundamentais.

A FORÇA DE UMA TRADIÇÃO

Em 2026, o açaí ganhou mais um reconhecimento histórico: a legislação federal passou a designá-lo como fruta nacional.

Mas nenhum título institucional consegue contar sozinho essa trajetória.

Para compreender por que o açaí chegou tão longe, é necessário voltar às ruas antigas de Belém e lembrar das mulheres que, muito antes das modernas máquinas de processamento, transformavam pequenos frutos roxos em alimento, trabalho e sobrevivência.

A história do açaí também é a história delas.

Por NAZARÉ SARMENTO/Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagens: Reprodução

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